SOBRE A ASSISTÊNCIA AO PARTO

25/12/2020

RESILIÊNCIA é uma das características intrínsecas ao ser humano, e na verdade a tudo o que existe.

A capacidade de aprender a lidar e a fazer face aos desafios que a vida oferece requer que nos proponhamos de facto a querer olhar aquilo que consideramos mais frágil em nós, sabendo que dispomos da habilidade para ultrapassar aquilo que inicialmente interpretamos como obstáculos, e EVOLUIR! 

Neste misto entre o potencial e a fragilidade a que todo o ser humano está votado, persiste a tendência para considerar e adjectivar a mulher e o bebé maioritariamente como frágeis e ignorar o  potencial que a vida em si encerra. Pergunto-me se se tratando do Trabalho de Parto não poderemos considerar que esse potencial duplica, uma vez que mãe e bebé se encontram envolvidos em simultâneo no mesmo processo – o de nascer ! 

Uma forma de repensarmos esta fragilidade e constatarmos a força e inteligência intrínseca do bebé, é propormo-nos observar a sua evolução durante a vida intra-uterina:

A título de exemplo, na 5ª semana após a concepção, todos os componentes básicos ficam definidos, incluindo um cérebro primitivo, uma coluna vertebral e o sistema sensorial que lhe permite ouvir, tocar, ver, degustar e cheirar. 

Coisas simples, portanto!

Sem referir o tamanho em centímetros que esta vida tem com apenas 5 semanas de concepção, saiba que o batimento cardíaco é detectado em cerca de 6 semanas de gravidez!

Pergunto, agora, o que é que cada um de nós fez, de facto, para que qualquer vida se implante e desenvolva in útero para além de se disponibilizar para ter uma relação sexual?

NADA, certo?

AINDA tem dúvidas sobre a existência de uma sabedoria que não lhe pertence, que existe e que assim como cria vida, também a sabe “dar á luz”?

Dar á luz = tornar visível!

Será que toda a realidade que existe, é apenas aquela que podemos observar e portanto nos é visível, ou como Saint- Exupery já dizia o essencial é invisível aos olhos (!?). É que antes de os seus olhos poderem bater nos do seu filho e das suas mãos o/a poderem aconchegar no seu colo, e se poder deliciar com o odor subtilmente doce dessa vida… ela já existe há meses a fio! Antes mesmo de dar conta que ela existe porque o sente dentro de si, o seu organismo já se reorganizou em milhares de funções para a receber.

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A grande questão que o trabalho de parto encerra baseia-se apenas no facto de nos esquecermos que no universo, e portanto também em cada um de nós, existe uma sabedoria intrínseca e que é indubitável no simples facto de estarmos vivos e portanto é independente de conectarmos com ela e a termos consciente ou não.

Talvez a melhor oferta que possamos fazer a nós próprios seja entrar em contacto com essa sabedoria o mais cedo possível, pois será ela a melhor ferramenta ao nosso dispor e a nosso favor num dos eventos mais importantes das nossas vidas.

A sociedade portuguesa, contrariamente ao resto da Europa e dos EUA, insiste em considerar que o nascimento é matéria que exige que se disponha apenas de um conhecimento técnico e médico para poder acontecer em segurança, menosprezando e ridicularizando um saber que nos é intrínseco. É esta a atitude que origina a entrega do nosso “poder pessoal” e que “justifica” a desinformação geral de mulheres e homens sobre o nascimento.

Considerando que obviamente que a classe médica detém um conhecimento sobejamente valioso, sobretudo quando falamos de gravidez de risco, a base da sua prática na assistência ao parto não deveria incidir no suporte e transmissão de informação de forma clara e baseada em evidência no que respeita á gravidez, parto e pós-parto?

Só a conjunção de uma atitude de suporte presente e observadora e o respeito pela fisiologia do parto promove uma participação que se quer activa apenas em caso de real necessidade e não por mera rotina, uma vez que o processo é inequivocamente influenciado pelo ambiente e percepção que todos os agentes envolvidos no processo têm do mesmo.

Enquanto não integrarmos que os protagonistas do trabalho de parto e parto são  a mulher e o bebé, continuarão a haver relatos de insatisfação, abandono, maus tratos e violência obstétrica.

Se nos propusermos olhar para a forma como cada um de nós exerce a sua função de forma encadeada com os demais que fazem parte do nosso círculo, entendemos que o parto é mais um exemplo de como o trabalho em equipa pode ser tão mais eficiente e prazeroso para todos sempre que aquilo que cada elemento domina for oferecido ao grupo e em prol do desenvolvimento do grupo.

É importante que compreendamos que os médicos estudaram vários anos no sentido de melhorar a qualidade de vida de pessoas doentes, não é de pessoas que se encontram de saúde. Os médicos são treinados para saber resolver situações em que têm que salvar vidas e fazê-lo de forma eficiente o que implica o treino de duas atitudes : controle e rapidez de acção. Ora o parto, pela sua própria natureza para além de não ser nenhuma patologia nem emergência, requer exactamente o contrário – entrega e tempo/ paciência . Com certeza que poderão surgir complicações e haver situações que exijam procedimentos médicos, mas são a excepção á regra.

A gravidez e o nascimento não são maleitas, padecimentos, doenças, sinal de ausência de saúde, e muito menos emergências e portanto não necessitam de uma “cura” ! São fases da vida do ser humano, como é a adolescência e a velhice, e que fazem parte de um processo que se designa de parentalidade. 

Seria bom que integrássemos em nós que a vida dos seres humanos á semelhança da natureza, também tem ciclos e que as passagens de ciclos têm os seus contornos e características específicas com as quais precisamos de gradualmente ir aprendendo a lidar para nos podermos adaptar da melhor forma possível às suas necessidades/ exigências. 

Sempre que  considerarmos que a gravidez e o nascimento não são assunto nosso estamos a abrir mão de uma responsabilidade que é nossa e a negligenciar a importância que a qualidade na assistência ao nascimento tem nos primeiros minutos, dias, e anos de vida. 

Frágil não significa incapaz, não significa inconsciente nem desmerecedor da devida atenção. Significa que existe uma sensibilidade acrescida numa fase ou período que tem características específicas que precisamos conhecer para nos podermos sentir seguros e com ferramentas para saber gerir da melhor forma as dificuldades que poderemos encontrar.

A parentalidade inicia, senão antes, pelo menos desde que existe um teste positivo e independentemente da forma que lidarmos com esse facto, a consciência, embora invisível, está presente

Sem desenvolver esta questão da consciência existir per si em todo o que existe, a anatomia necessária para interpretar e percepcionar o mundo desenvolve-se rapidamente e assim que uma nova vida começa a ganhar forma. Não é porque não o vê que o seu filho não sente.

Os cuidados pré-natais e pós-natais deveriam ser uma das prioridade de qualquer sociedade, pois são as mulheres e os casais “grávidos” que definem as gerações futuras. É, na minha opinião, um assunto de todos nós, já que todos nascemos e muitos darão á luz novas vidas.

Ciência e Intuição 1/2
Será que podemos considerar que uma gravidez desde que seja seguida e estando a decorrer dentro da normalidade e dado o conhecimento que actualmente já detemos do desenvolvimento de um trabalho de parto, é possível prever o que pode ocorrer?
O QUE É QUE ESTÁ Á ESPERA? PERMITA-SE!
Acostumámo-nos a viver numa alucinação e é difícil conseguir sair da roda viva. Estamos de tal forma habituados á turbulência que, parar, parece coisa de gente sem nada para fazer da vida.
Ciência e Intuição 2/2
Há vários países e vários artigos publicados, que referem que a mulher ‘de baixo risco’ deve ser acompanhada em casas de parto ou em casa por equipas competentes e especializadas neste acompanhamento. Consideram que estas mulheres têm maior probabilidade de intervenções desnecessárias, ao estarem num hospital
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