Ciência e Intuição 1/2

27/11/2020

À distância pode ser confundida com uma gaiata mas só quem vive num espaço de tamanho conforto em si, se movimenta com tamanha “leveza”.
Percebemos que criou raízes apesar de à primeira vista o olhar doce e tranquilo nos poder induzir para um perfil mais ligeiro. É com sabedoria, serenidade e segurança que a Raquel Cajão exerce a sua prática enquanto Enfermeira Especialista em Saúde Materna e Obstétrica.
Quando ouvi falar dela quis imediatamente entrevistá-la

Raquel, sei que fizeste um estágio no Hospital Sofia Feldman, no Brasil, que é uma referência para todos os que acreditam e defendem uma prática de parto humanizado. Fala-nos dessa tua experiência.

Foi uma experiência muito rica e única!
O Hospital Sophia Feldman é um hospital público, exemplar na sua conduta. Foi condecorado por várias instituições, nomeadamente a Unesco.
Sempre orientada por Enfermeiros Especialistas em Saúde Materna e Obstétrica, peritos em acompanhar e respeitar a mulher em qualquer momento da sua gravidez, parto e pós parto. Acompanhei mulheres e bebés em diversos contextos e situações. Fosse em ambulatório, no domicílio, na casa de partos ou no hospital, tive a oportunidade de aprender com estes profissionais a respeitar a mulher grávida/ mãe, o bebé e a comunidade.

O que mais me marcou foi a questão de se honrar o processo da grávida e promover a fisiologia do parto, independentemente de serem cuidados oferecidos a uma grávida em pré-eclampsia ou de baixo risco e que decidiu parir em casa. Em ambas as situações, usar a tecnologia do parto ‘hospitalar’ apenas quando necessário e sempre a favor da grávida, procurando respeitar as suas escolhas.
Este hospital não tem metade das condições a que estamos habituados a ver em qualquer maternidade/ hospital em Portugal e é um exemplo a seguir, quer na conduta de envolver e servir a comunidade, quer no seguimento de outras técnicas de apoio ao parto também elas baseadas em evidência cientifica.

É incrível, de facto, porque no Brasil também existe a realidade oposta pois a taxa de cesarianas é das mais elevadas. O Sophia F.  é mesmo fora da norma, especialmente da brasileira…

Sim e de outras realidades, nomeadamente a portuguesa, e não estou só a falar de cesarianas. Foi marcante observar, sentir e praticar uma realidade de acompanhamento da mulher e do bebé que muita gente me dizia ser utópica ou que era necessário haver muito investimento (risos).

E sabes como surge um Hospital com esta filosofia quando o que predomina é o oposto? É um movimento interno, que surge de dentro do Hospital? Foram os profissionais que começaram a ter vontade de participar numa prática mais humanizada?

O Hospital surge da iniciativa do Sr. José de Souza Sobrinho, Dr. Ivo de Oliveira Lopes, obstetra, e Dr. José Carlos da Silveira, pediatra. Iniciaram a construção do hospital com doações e fundos. Desde o inicio e até hoje este hospital envolve a comunidade que serve.

Durante o tempo em que lá estive, assisti a várias reuniões semanais e/ou quinzenais dos dirigentes: umas com os ‘porta voz’ da comunidade, outras com os pais e outras com os profissionais; todas destinadas à reflexão, à escuta e à mudança de cuidados e condutas.

Penso que foi o primeiro hospital a começar a formar mulheres da comunidade para serem doulas.  Mulheres sem experiência técnica na área da saúde, mas que recebem formação para orientar e assistir a nova mãe e família. Mulheres que oferecem conforto, suporte emocional, físico e informativo e que, em regime de voluntariado, acompanham as mães que não têm possibilidade de pagar os serviços de uma doula ou enfermeira parteira.

Para além do Hospital Sofia Feldman, quais são as tuas referências quando falamos em parto humanizado e porquê?

Tantas…
– A Casa Ângelo, em São Paulo:
uma casa de partos que iniciou por servir uma comunidade da favela e que neste momento tem mulheres de todos os lados a quererem ser seguidas lá, devido à existência de respeito pela mulher, pela fisiologia do parto e pela promoção do parto natural e, ainda, pela possibilidade de o praticar dentro de água.
– A Miriam Rego e a Naoli Vinaver:
– Bianca Dias Amaral, enfermeira Parteira que trabalha nos médicos sem fronteiras.
– Ina May Gaskin, Barbara Harper…

Achas que foi essa experiência que motivou iniciares a tua pratica como enfermeira  especialista em Saúde Materna e Obstetrícia fora de Hospital? 

Foi um impulso forte – depois de se ver que é possível, custa muito não o poder fazer.
Mas, sendo sincera, o maior impulso já estava dentro de mim.
Nunca imaginei que viria a ser parteira. Aliás nunca imaginei nada! Fui sempre uma criança de subir ás árvores e nunca pensei em nada mais para além do momento que tinha á minha frente.
Mas houve uma altura em que comecei a querer saber mais sobre mim e sobre o que é isto de “ser Mulher”. Fiz formação de doula, estudei sexualidade feminina, comecei a acompanhar mulheres que vinham ao meu encontro, e então fez sentido especializar-me em saúde materna e obstétrica. O hospital Sofia Feldman acabou por tornar mais claro o que desejava fazer e promover enquanto parteira, dentro e fora do hospital.

Gostava de aprofundar contigo esta questão de acompanhar partos não hospitalares, sejam eles domiciliares ou em clínicas. Quais são as condições que habilitam uma mulher a ter um parto não hospitalar e as que indicam para hospital? Existem factores de risco que podem ser indicadores de a mulher estar apta ou não a um parto hospitalar, certo?

Por definição, a mulher candidata a um parto em casa é aquela designada ‘de baixo risco’ durante a sua gravidez e parto. A mulher que em algum momento apresenta algo que a torne de alto risco deverá procurar ser seguida no hospital. O facto de ser seguida num hospital não a impede de ter um parto dito “normal”. Contudo ela deve ser acompanhada num hospital porque é onde estão os meios e equipas indicados para garantir uma maior segurança dela e do seu bebé (por ex.uma eclâmpsia ou pré-eclâmpsia).
Na minha opinião há algumas definições ‘de alto risco’ que deveriam ser reconsideradas, pois não apresentam um risco absoluto como por exemplo uma mãe com 40 anos de idade. Nesta e noutras situações idênticas, o casal deveria ser bem informado dos riscos e benefícios e, caso decidisse ter o seu parto em casa, escolher uma equipa que tenha experiência larga em partos no domicílio, isto é, seja experiente neste acompanhamento e com a qual se sinta confortável.

Mas é portanto identificável durante a gravidez? Parece-me persistir a ideia de que dado a vida ser imprevisível é sempre mais seguro ir para o hospital. Será que podemos considerar que uma gravidez desde que seja seguida e estando a decorrer dentro da normalidade e dado o conhecimento que actualmente já detemos do desenvolvimento de um trabalho de parto, é possível prever o que pode ocorrer?

Os parto domiciliares também são acompanhados por Enfermeiros Especialista em Saúde Materna e Obstétrica, como tu és, ou seja, profissionais que conhecem os indicadores de risco, certo?Independentemente do local, a mulher e seu bebé deverão ser vigiados, acompanhados em todas as suas necessidades e nestas realço a sua autonomia física e suporte emocional.Uma equipa que acompanha uma mulher grávida em casa, deverá ter formação e experiência para detectar e resolver complicações e emergências em casa.

Grande parte das complicações que ocorrem nas mulheres ‘de baixo risco’ são prevenidas durante a gravidez e portanto quanto mais vigiarmos e cuidarmos da diade mãe-bebé, melhores e mais felizes serão os resultados, mesmo que o parto planeado para casa termine numa cesariana no hospital.

Quais são as situações que consideras que são de risco e portanto não indicadas para um parto domiciliar?

(Não perca a 2ª parte desta entrevista onde continuamos a explorar todas as questões relacionadas com o parto domiciliar)

SOBRE A ASSISTÊNCIA AO PARTO
Neste misto entre o potencial e a fragilidade a que todo o ser humano está votado, persiste a tendência para considerar e adjectivar a mulher e o bebé maioritariamente como frágeis e ignorar o potencial que a vida em si encerra.
O QUE É QUE ESTÁ Á ESPERA? PERMITA-SE!
Acostumámo-nos a viver numa alucinação e é difícil conseguir sair da roda viva. Estamos de tal forma habituados á turbulência que, parar, parece coisa de gente sem nada para fazer da vida.
Ciência e Intuição 2/2
Há vários países e vários artigos publicados, que referem que a mulher ‘de baixo risco’ deve ser acompanhada em casas de parto ou em casa por equipas competentes e especializadas neste acompanhamento. Consideram que estas mulheres têm maior probabilidade de intervenções desnecessárias, ao estarem num hospital
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