Ciência e Intuição 2/2

(pode ler a primeira parte desta entrevista aqui)

Quais são as situações que consideras que são de risco e portanto não indicadas para um parto domiciliar?

Toda a situação clínica que coloca a mulher num ‘alto risco’ ou que a saúde dela e do bébé estejam ameaçadas, deve ser encaminhada para o hospital.
Por exemplo, uma grávida que inicia um trabalho de parto antes das 37 semanas, ou portadora de hipertensão, ou com hemorragia abundante pós parto e que não reverteu com os cuidados da equipa em casa, será encaminhada para o hospital. Um bébé com alteração da frequência cardíaca será encaminhado para o hospital.

Que tipo de equipamento e material vocês levam convosco quando acompanham um parto domiciliar e que vos suporta o facto de não estarem no hospital? Podemos considerar que existe a mala da enfermeira parteira?

Levamos uma mala cheia de formação (risos).

Não digo que o material não é importante mas não é o material em si que define a conduta de um(a) profissional esteja ele(a) num hospital, numa casa de partos, numa clínica ou em casa. O que acontece é que pode correr tudo lindamente e os imprevistos acontecem e o que é fulcral é a capacidade de análise e o conhecimento que cada profissional tem sobre aquela grávida, o bébé, a família e o caso particular que se desenrola momentaneamente.
É mediante uma observação perspicaz e baseada nestes conhecimentos que a causa ou causas de determinadas situações são detectadas e então se pode agir em conformidade. O conhecimento técnico e a evidência cientifica estão presentes nesta análise mas não podemos descurar que é absolutamente necessária uma observação mais holística pois sem dúvida que algumas situações são despoletadas por questões emocionais.

O material que cada equipa utiliza é variável..
Essencialmente: Oxigénio, fetoscopio, estetoscópio, Doppler (para escutar o batimento cardio fetal), aspirador, ambu, material para soroterapia, sondas vesicais, compressas, luvas… Eventualmente outros.

 

Mas para situações em que há pouco tempo de resposta como a reanimação cardíaca do bébé, vocês conseguem fazer algo no momento, enquanto a transferência não é efectuada?

Fazemos o suporte básico de vida, sempre!

Que é…? Para quem não sabe exactamente o que pode estar implicado.

Para ajudar um bébé com dificuldade a iniciar a respirar pode ser só necessária a estimulação leve nas costas do mesmo. Poderá também ser necessário aspirar secreções e/ou a utilização do ambu.
A maioria dos bébés com dificuldade em iniciar a respirar não tem alterações do ritmo cardíaco.
A situação de uma paragem cardio-respiratória num bébé é muito rara. Nesta situação o procedimento é igual a um hospital: estimulação do bébé, aspiração de secreções se a situação clinica o exigir, reanimação cardio – respiratória. Enquanto a equipa está a reanimar o bébé, inicia-se a transferência.

E oxigénio?
Sim, levamos connosco sempre.

Desculpa a insistência, mas parece-me existir a ideia de que “ah mas depois pode ser necessário isto ou aquilo e não há porque não estão no hospital… e fazem a transferência mas ás vezes pode ser uma questão de segundos…” Será importante esclarecer se vocês têm convosco o básico e essencial para dar resposta caso seja necessário fazer uma transferência para o Hospital, como por exemplo essa questão da dificuldade de iniciar a respiração… Já assisti a um nascimento em que a bebé fez ela própria o necessário para expulsar as secreções e num instante estava a respirar, a chorar e a mamar ( risos). É verdade que eles fazem isso e fazem isso tão bem! E afinal é essa capacidade de análise que é determinante para perceber se eles necessitam de ajuda externa, e ela existe, ou não e respeitar isso.

Sim, um casal quando procura a sua equipa para um parto em casa deve fazer perguntas que esclareçam as suas dúvidas, e, como já referi, sentir empatia com a equipa.
A Associação Portuguesa pelos Direitos da Mulher na Gravidez e Parto tem orientações para o primeiro encontro com a equipa que acompanhe partos em casa
O material poderá ser uma pergunta que o casal tenha necessidade de averiguar, contudo a resposta não define a conduta que a equipa vai tomar numa situação de emergência.
Também é imprescindível perceber a experiência da equipa com a resolução de emergências em casa e se essa experiência existe, averiguar como lidaram com elas.

Exacto. Porque também existe a ideia de que isto agora de se fazer partos em casa é uma maluquice.
Afinal há hospitais…estão preparados …
Tenho amigos que vêem as minhas fotografias e reagem com “ ainda se fazem partos em casa!?”.
Considero importantíssimo esclarecer pois a desinformação aplica-se igualmente ás práticas hospitalares.
Quantas pessoas sabem que quem apoia os partos mesmo hospitalares são os enfermeiros e não são os médicos?
Afinal o que é que o Hospital tem como resposta que em casa não há?

(Repetindo-me) Para o acompanhamento de mulheres de baixo risco o hospital não tem nada a mais que qualquer equipa que trabalha em casa. Por vezes pode até ter menos, como por exemplo a possibilidade de utilização da piscina, do banco de partos, do rebozo (pano de origem mexicana que entre outras coisas ajuda no alivio da dor) e o tempo e a paciência necessária para respeitar a fisiologia daquele parto. Não esquecer que é recomendado o racio de um enfermeiro para uma parturiente e a realidade portuguesa é bem diferente.

Há emergências que ocorrem em casa e são resolvidas em casa. É excepcional a emergência que necessita de ser transferida em mulheres de baixo risco. Nestes casos a OMS defende que o casal deve estar a 20 min do hospital. Este é o tempo limite que eles consideram necessário para transferir uma emergência para um hospital.
Ainda assim qualquer casal e independentemente da sua escolha do local para o parto, deve saber que há bébés e mães que morrem durante o parto quer em casa quer no hospital.

Há alguns países, assim como vários artigos publicados, que referem que a mulher ‘de baixo risco’ deveria ser acompanhada em casas de parto ou em casa por equipas competentes e especializadas neste acompanhamento. Consideram que estas mulheres têm maior probabilidade de intervenções desnecessárias, de infecções mãe/bébé e por consequência maior probabilidade de complicações ao estarem num hospital. Além de que consideram que estas mães têm mais benefícios em terem o seu parto em casa do que no hospital. Um desses benefícios é poderem estar num ambiente familiar, com maior conforto e mais tranquilidade, algo já provado como essencial para uma evolução normal do parto e sem complicações.

Podemos considerar que se pode colocar a situação de se estar a acompanhar um parto em casa e ser necessário uma cesariana?
Sim.
Por isso é importante que o casal que escolhe ter um parto em casa escolha uma equipa de profissionais de saúde habilitados para o acompanhar. Esta equipa zelara , durante o acompanhamento pré-parto, pela segurança e saúde da grávida/mãe e do bébé. Se detectar alguma complicação que não possa ser resolvida em casa, procede á transferência para o hospital. A cesariana e qualquer outra intervenção médica são meios essenciais quando utilizados no momento certo.

Qual é a altura ideal para se começar a procurar uma equipa no caso de se estar interessado em fazer um parto em casa?

Ainda há poucos profissionais a acompanhar partos no domicílio, portanto quanto mais se adiar, mais difícil será de encontrar alguém disponível.

Como se chega ao contacto com estas equipas?

A divulgação das equipas que acompanham partos em Portugal costuma ser através de doulas e mães/familiares que já tiveram a experiência de um parto em casa. Contudo também se pode encontrar algumas equipas/ profissionais no site da Rede Portuguesa de Doulas, na Associação Portuguesa Pelos Direitos da Mulher na Gravidez e Parto e no site das Mães D ´Agua.

Este acompanhamento prevê exactamente o quê e qual é o valor que está associado?

O acompanhamento depende da equipa e por isso é importante entrevistar vários colegas para perceber os serviços que estão incluídos, a experiência, se há empatia… e perceber qual é a disponibilidade do profissional e/ ou equipa. Algumas equipas trabalham em simultâneo em casa e no hospital, sendo a sua disponibilidade diferente das equipas que trabalham exclusivamente em casa.
Em relação a valores também é variável e parece-me que fica entre os 1800€-2500€.

No vosso caso particular – digo vosso porque sei que trabalhas sempre com mais um técnico, prevê acompanhamento na gravidez, parto e pós-parto?

Sim, trabalho sempre em equipa com uma parteira, em conformidade com as normas da OMS.
Nós só acompanhamos um parto se fizermos antes o acompanhamento pré-parto e fizermos depois o seguimento pós-parto.

Consideras o trabalho da doula importante?

Sim, é um trabalho muito especial, único e que faz uma grande diferença na vivência da gravidez, parto e pós-parto nas famílias. Considero que deveria ser um serviço disponível para qualquer grávida e família que assim o desejasse.

Qual é o maior inimigo de um parto?

O Medo! Quer seja na mãe, nas famílias e/ou profissionais.

Apesar de ser das situações mais comuns nas nossas vidas, nunca encarei o constituir família como um acto banal e por isso contínuo a pedir referências para as mães e famílias que estejam interessados em explorar mais sobre este assunto.

O acesso á informação hoje em dia é muito fácil mas por ser tão fácil nem sempre é fiável e por isso gosto de solicitar referências aos meus entrevistados…já que jogam em casa.

Gosto muito dos livros Spiritual Midwifery de Ina May Gaskin e Birth from within de Pam England e Robustezes Horowitz.
Qualquer base de dados creditada, como por exemplo a Cochrane
O site da APDMGP
A Intuição da mãe/ casal (sorriso).

Muito obrigada, Raquel!

 

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