Ciência e Intuição 1/2

À distância pode ser confundida com uma gaiata mas só quem vive num espaço de tamanho conforto em si, se movimenta com tamanha “leveza”
Percebemos que criou raízes apesar de à primeira vista o olhar doce e tranquilo nos poder induzir para um perfil mais ligeiro. É com sabedoria, serenidade e segurança que exerce a sua prática enquanto Enfermeira Especialista em Saúde Materna e Obstetrícia.
Quando ouvi falar dela quis imediatamente entrevistá-la. Na altura não se proporcionou e passados alguns meses recebi uma mensagem a perguntar se ainda mantinha interesse em conversar com ela…
Claro que sim!
Sou fã de casamentos felizes entre um conhecimento que é técnico e um outro que nos é intrínseco e a que prestamos tão pouca atenção, esquecendo que fazemos parte de um todo que existe per si.
A Raquel é expressão desta ligação entre o saber cientifico e a escuta ativa de si e de tudo que a rodeia.
É com muita mestria que exerce esta actividade com uma abordagem sempre integradora da mulher, do seu contexto e condição; do trabalho de parto e do nascimento.

Sei que fizeste um estágio no Hospital Sofia Feldman, no Brasil, que é uma referência para todos os que acreditam e defendem uma prática de parto humanizado. Fala-nos dessa tua experiência.

Foi uma experiência muito rica e única!
O Hospital Sophia Feldman é um hospital público, exemplar na sua conduta. Foi condecorado por varias instituições, nomeadamente a Unesco.
Sempre orientada por Enfermeiros Especialistas em Saúde Materna e Obstétrica, peritos em acompanhar e respeitar a mulher em qualquer momento da sua gravidez, parto e pós parto. Acompanhei mulheres e bébés em diversos contextos e situações, fosse em ambulatório, no domicílio, na casa de partos ou no hospital, tive a oportunidade de aprender com estes profissionais a respeitar a mulher grávida/ mãe, o bébé e a comunidade.

Para além de todos os actos de enfermagem que pude aprender e apurar, pude também aprender a prática de terapias alternativas tão necessárias para esta fase de vida da mulher (gravidez e parto), como por exemplo, a hidroterapia, a massagem e o parto na água.
O que mais me marcou foi a questão de se honrar o processo da grávida e promover a fisiologia do parto, independentemente de serem cuidados oferecidos a uma grávida em pré-eclampsia ou uma de baixo risco que decidiu parir em casa. Em ambas as situações, usar a tecnologia do parto ‘hospitalar’ apenas quando necessário e sempre a favor da grávida, procurando respeitar as suas escolhas.
Este hospital não tem metade das condições a que estamos habituados a ver em qualquer maternidade/ hospital em Portugal e é um exemplo a seguir, quer na conduta de envolver e servir a comunidade, quer no seguimento de outras técnicas de apoio ao parto também elas baseadas em evidência cientifica.

É incrível, de facto, porque no Brasil também existe a realidade oposta pois a taxa de cesarianas é das mais elevadas. O Sophia F.  é mesmo fora da norma, especialmente da brasileira…

Sim e de outras realidades, nomeadamente a portuguesa, e não estou só a falar de cesarianas. Foi marcante observar, sentir e praticar uma realidade de acompanhamento da mulher e do bébé que muita gente me dizia ser utópica ou que era necessário haver muito investimento e outro tipo de condições (risos).

E sabes como surge um Hospital com esta filosofia quando o que predomina é o oposto? É um movimento interno, que surge de dentro do Hospital? Foram os profissionais que começaram a ter vontade de participar numa prática mais humanizada?

O Hospital surge de uma iniciativa de um Sr. José de Souza Sobrinho, Dr. Ivo de Oliveira Lopes, obstetra, e Dr. José Carlos da Silveira, pediatra. Iniciaram a construção do hospital com doações e fundos. Até cerca de 1986 o Hospital funcionou com trabalho de voluntariado e doações da comunidade. Neste ano, através de um movimento comunitário, foi incluído nas Ações Integrais de Saúde – um programa precursor do Sistema Único de Saúde. Desde o inicio e até hoje este hospital envolve a comunidade que serve.

Durante o tempo em que lá estive, assisti a várias reuniões semanais e/ou quinzenais dos dirigentes: umas com os ‘porta voz’ da comunidade, outras com os pais e outras com os profissionais; todas destinadas à reflexão, à escuta e à mudança de cuidados e condutas.

Foi o primeiro hospital, de que tenho conhecimento, que começou a formar mulheres da comunidade para serem doulas. São“mulheres que servem”, mulheres sem experiência técnica na área da saúde, que orientam e assistem a nova mãe e família. Mulheres que oferecem conforto, encorajamento, tranquilidade, suporte emocional, físico e informativo e que, em regime de voluntariado, acompanham as mães que não têm possibilidade de pagar os serviços de uma doula ou enfermeira parteira.

Para além do Hospital Sofia Feldman, quais são as tuas referências quando falamos em parto humanizado e porquê?

Tantas…
– A Casa Ângelo, em São Paulo:
uma casa de partos que iniciou por servir uma comunidade da favela e que neste momento tem mulheres de todos os lados a quererem ser seguidas lá, devido à existência de respeito pela mulher, pela fisiologia do parto e pela promoção do parto natural e, ainda, pela possibilidade de o praticar dentro de água.
– A Miriam Rego e a Naoli Vinaver:
parteiras brasileiras que acompanham partos no domicílio, que tive o prazer de conhecer e com quem muito aprendi.
– Bianca Dias Amaral, enfermeira Parteira que trabalha nos médicos sem fronteiras e que tive o prazer de escutar e aprender com a sua experiência.
– Ina May Gaskin, Barbara Harper… (sorrisos)

E depois vieste para Portugal e deparaste-te com uma realidade bem diferente! Foi difícil?

Contrastante! Bastante contrastante ( Risos)

Achas que foi essa experiência que motivou iniciares a tua pratica como enfermeira  especialista em Saúde Materna e Obstetrícia fora de Hospital? Viveres essa realidade que demonstra que desde que estejamos alinhados com o nosso propósito, tudo é possível?

Foi um impulso forte – depois de se ver que é possível, custa muito não o poder fazer.
Mas, sendo sincera, o maior impulso já estava dentro de mim.
Nunca imaginei que viria a ser parteira. Aliás nunca imaginei nada! Fui sempre uma criança de subir ás árvores e nunca pensei em nada mais para além do momento que tinha á minha frente.
Mas houve uma altura em que comecei a querer saber mais sobre mim e sobre o que é isto de “ser Mulher”. Fiz formação de doula, estudei sexualidade feminina e naturalmente comecei a acompanhar mulheres que vinham ao meu encontro. E então fez sentido especializar-me em saúde materna e obstétrica. O hospital Sofia Feldman acabou por vir até mim naturalmente e tornar mais claro o que desejava fazer e promover enquanto parteira, dentro e fora do hospital.

Só para nos situarmos um pouco, significa que tu já eras enfermeira quando resolveste fazer a especialidade, é isso?

Sim, já trabalhava como enfermeira há cerca de 10 anos.
Em Portugal, primeiro tens de ser enfermeira com alguma experiência, só depois podes ou deves tirar a especialidade.
Inicialmente pensei fazer esta especialidade fora de Portugal, pois queria uma formação e prática que em Portugal não existe. Mas como era em Portugal que queria trabalhar e sabia que era muito difícil conseguir certificação em Portugal quando a especialidade é feita fora, acabei por fazê-la cá. Quando terminei a especialidade saí do país para poder encontrar o que não tinha conseguido cá.

Tenho feito esta pergunta a algumas pessoas que tenho entrevistado e resolvi fazê-la a ti também porque incide sobre dois conceitos que me parecem estar a ser utilizados de uma forma descomprometida para definir a mesma situação. Consideras haver alguma diferença entre um parto denominado normal e um parto denominado natural? As pessoas referem-se ao mesmo apesar de serem dois conceitos diferentes, certo?

Depende de facto do autor, pois se lermos, por exemplo, o teu texto sobre parto natural de uma forma geral conseguimos entender que consideras o parto natural aquele que não tem intervenções desnecessárias.
Se lermos a OMS ela define o parto normal como todo o parto que se inicia espontaneamente, que permanece de baixo risco do inicio até ao fim, que inicia entre as 37 e as 42 semanas, que a mãe e o bebé estão bem…etc. Mas entre países também há denominações diferentes. O Royal College of Midwives define que as mulheres com epidural não têm partos normais… contudo a Associação de Ginecologia e Obstetrícia do Canada, já considera que as mulheres que têm epidural têm um parto normal. Diferentes entidades podem ter diferentes conceitos sobre o que pode ser considerado um parto “normal”.
Assim sendo, entendo que ‘natural’ e ‘normal’ deveriam ser ensinados como sinónimos, ou seja, termos de docência que, dependendo de quem os usa, poderão ser aplicados no mesmo contexto.

Gostava de aprofundar contigo esta questão de acompanhar partos não hospitalares, sejam eles domiciliares ou em clínicas. Quais são as condições que habilitam uma mulher a ter um parto não hospitalar e as que indicam para hospital? Existem factores de risco que podem ser indicadores de a mulher estar apta ou não a um parto hospitalar, certo?

Por definição, a mulher candidata a um parto em casa é aquela designada ‘de baixo risco’ durante a sua gravidez e parto. A mulher que em algum momento apresenta algo que a torne de alto risco deverá procurar ser seguida no hospital. O facto de ser seguida num hospital não a impede de ter um parto dito “normal”. Contudo ela deve ser acompanhada num hospital porque é onde estão os meios e equipas indicados para garantir uma maior segurança dela e do seu bébé (por ex.uma eclâmpsia ou pré-eclâmpsia).
Na minha opinião há algumas definições ‘de alto risco’ que deveriam ser reconsideradas, pois não apresentam um risco absoluto como por exemplo uma mãe com 40 anos de idade. Nesta e noutras situações idênticas, o casal deveria ser bem informado dos riscos e benefícios e, caso decidisse ter o seu parto em casa, escolher uma equipa que tenha experiência larga em partos no domicílio, isto é, seja experiente neste acompanhamento e com a qual se sinta confortável.

Mas é portanto identificável durante a gravidez? Parece-me persistir a ideia de que dado a vida ser imprevisível é sempre mais seguro ir para o hospital. Será que podemos considerar que uma gravidez desde que seja seguida e estando a decorrer dentro da normalidade e dado o conhecimento que actualmente já detemos do desenvolvimento de um trabalho de parto, é possível prever o que pode ocorrer?

Um parto domiciliar é acompanhado por um enfermeiro especialista em ginecologia e obstetrícia, como tu és e vocês são profissionais e conhecem os indicadores de risco, certo?

A segurança no trabalho de parto não significa um final como a mulher possa ter imaginado, independentemente de ocorrer em casa, numa casa de partos ou num hospital. O parto é algo não previsível.
Independentemente do local a mulher e seu bébé deverão ser vigiados, acompanhados em todas as suas necessidades. Nestas, realço a sua autonomia física e emocional.

Uma equipa que acompanha uma mulher grávida em casa, deverá ter formação e experiência para detectar e resolver complicações e emergências em casa.

Grande parte das complicações que ocorrem nas mulheres ‘de baixo risco’ são prevenidas durante a gravidez e portanto quanto mais vigiarmos e cuidarmos da díade mãe-bébé, melhores e mais felizes serão os resultados, mesmo que o parto planeado para casa termine numa cesariana no hospital.

Quais são as situações que consideras que são de risco e portanto não indicadas para um parto domiciliar?

(Não perca a 2ª parte desta entrevista onde continuamos a explorar todas as questões relacionadas com o parto domiciliar)

 

 

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