Saúde Integral da Mulher – 2/2

( pode ler a primeira parte desta entrevista aqui)

Podemos dizer que o estilo de vida pode determinar a fertilidade ou infertilidade, ou seja, que existem factores a que todos nós temos acesso e que podem influênciar a fertilidade?

A poluição é um dos factores que sem dúvida influência a fertilidade masculina e feminina. Quanto mais poluído estiver o planeta mais estaremos todos expostos a toxinas, metais pesados e poluentes que entram no corpo e que não favorecem o desenvolvimento de uma nova vida. O que podemos fazer é tentar limitar ao máximo estes químicos sintéticos que sem dúvida que estão nos alimentos que são criados com pesticidas e podemos fazer escolhas e preferir os biológicos…. ou não…

Evitar os plásticos ou não usar mesmo plásticos para a confecção e conservação dos alimentos. Fazer escolhas nos produtos que utilizamos na nossa higiene diária e pessoal e nos produtos que utilizamos de limpeza. Isto é básico!

Para muita gente não é, ou parece não ser! As pessoas não estão sequer habituadas a ler rótulos!
Sim é verdade. Mas podemos fazer muita coisa por nós.

Evitar alimentos que sabemos que estão contaminados (Ex: salmão). Esta questão da poluição é um dos factores que explicam porque a fertilidade caiu a pique! A contagem espermática nos homens caiu 50% nos últimos 50 anos. Mas obviamente que ninguém está protegido ainda que esteja a viver num canto do planeta menos poluído. Mas a questão é que se em cima disto ainda temos um estilo de vida que em vez de auxiliar, prejudica o organismo porque comemos mal, fumamos, bebemos imenso álcool, não praticamos desporto, estamos fechados e temos um trabalho stressante ou de que não gostamos, dormimos mal… É sempre a acrescentar agressão ao organismo.

Gostava de falar sobre a tua decisão de fazeres formação de doula. É uma decisão que tomas em que altura da tua vida?
A seguir ao nascimento do meu primeiro filho

Então se calhar começamos por explorar essa parte. Como foi essa gravidez e parto?

A gravidez foi tranquila e não houve nada de especial a reportar. Mas durante e depois do parto é que comecei a me interessar mais sobre o parto e comecei a frequentar um circulo de mães que organizou a vinda do Michel Odent a Portugal que já conhecia de alguns livros e entrevistas on line.

Então é quando engravidas que conheces o trabalho do Michel Odent?

Não, não. Isto é tudo depois do parto porque durante a gravidez segui apenas o meu instinto de ter cuidado com a alimentação, etc. E antes do parto também não sabia muito sobre o parto. Só sabia que não queria o parto medicalizado, mas não tinha lido nem pesquisado nada. Só sabia que queria um parto natural e pensei que não haveria muito mais a saber sobre o assunto.

E o que acontece nesse parto?
Uoff! A bolsa rebentou por volta da 01H00 e como estava a ser seguida por uma obstetra que reconhecia também a importância do parto natural, liguei-lhe e as recomendações foram para passear. Mas, entretanto, o grande erro foi o de avisar também os meus sogros, porque eles vivem em Espanha e eles puseram-se a caminho ! (risos)
Resumindo e concluindo, estava eu em casa a tentar fazer a dilatação na “companhia” dos meus sogros e do meu cunhado! Percebi que não era possível e então fui ter com a minha obstetra ao Hospital. O parto foi super demorado. Muito longo!

A sensação de que mais me recordo foi a de estar a ser partida ao meio e que nunca mais seria a mesma. Pensei que morria! O Michel Odent fala muito sobre este pico de adrenalina, na altura eu não sabia disso e assustei-me e comecei a gritar que ia morrer porque era o que estava a sentir. E de facto se estiveres no processo sentes que a transformação porque estás a passar, porque é físiológica, é tão grande que parece que vais morrer.

Depois há uma enorme sensação de alivio quando o bebé nasce e fiquei tão, mas tão feliz que demorei um bocado a perceber que o imediato pós parto não correu tão bem como poderia ter sido.
Quando ele nasce é colocado imediatamente em cima de mim, mas depois entra o pediatra e resolve levar o meu filho para uma incubadora com oxigénio e calor. E eu ainda estava completamente eufórica porque finalmente tinham passado todas aquelas dores e finalmente tinha o meu filho nos meus braços…mas senti que alguma coisa não estava certa porque de repente não tinha o meu filho comigo! Só mais à frente depois entendi que esses minutos e horas seguintes são imprescindíveis para criar esse vinculo que é tão necessário para o futuro e essencialmente que esse tempo é precioso na medida que facilita o estabelecimento dessa vinculação.

Hoje eu percebo isso, mas na altura senti-me só perdida.

Tudo isto eu leio hoje à luz daquilo que eu sei: que houve uma quebra de oxitocina naquele momento de vinculação que é tão importante e infelizmente acontece a tantas mulheres.

Queres explicar melhor para quem, como tu na altura, não está tão bem informado sobre o efeito das hormonas?

Nós, como todos os mamíferos, temos uma janela de tempo para o estabelecimento deste laço tão forte. Após o nascimento, se alguém intervém e retira as crias à mãe, quando as devolvem, ela já não se sente impelida a cuidar das suas crias e nós embora sejamos seres racionais a verdade é que se nos retiram o bebé – o que na verdade é tão comum sem qualquer razão realmente justificável como seja lavar, vestir o bebé, pesar…- perdemos essa maravilhosa janela de oportunidade de criar esse envolvimento tão forte com o nosso bebé e ele connosco, na altura em que há um pico de oxitocina e de endorfinas, no imediato pós parto.

E o que aconteceu comigo foi que foi difícil criar essa vinculação com ele porque esse período que é favorável ao seu estabelecimento foi interrompido.

Tu estavas preparada para ser mãe?

Sim e não! Nunca pensei que pudesse ser tão exaustivo ser mãe. São 24 sobre 24 horas non stop.
E parece-me que isto é comum a muitas mulheres no pós parto – não estamos preparadas para esse grau de exigência.

E é muito engraçado que muitas mulheres não assumam isso. Estão a viver essa dificuldade e a assumir para elas próprias que é uma dificuldade delas, sem entenderem que estão a passar por uma transformação enorme que naturalmente traz dificuldades e requer apoio e um período de adaptação.

Sim há um grande tabu sobre o baby blues e a depressão pós parto que deveria ser mais explorado mesmo nos cursos de preparação para o parto. Aliás esse é o trabalho que a Constança faz aqui no Centro do Bebé para que não vivam essa dificuldade na solidão e com sentimento de culpa de serem inadequadas.

De haver algo de errado com elas?

Sim, sim. Isso é terrível

Sei que és mãe de 2 rapazes. O que mudou na segunda gravidez e parto?

Fiz um grande percurso à volta destes temas e depois a nível pessoal tive duas experiências também elas transformadoras.

Entretanto a minha obstetra já não estava a exercer no hospital onde tive o meu primeiro filho. As alternativas que tinha era ir para o SAMS porque é onde o meu marido trabalha e levar a minha obstetra comigo, ou ter o bebé em casa devidamente acompanhada. E eu sei que é muito comum o medo de acontecer algo e não chegar a tempo ao Hospital mas para mim era o oposto. Eu tinha muito mais medo do que poderia estar habilitada a que me acontecesse no hospital. E essa é a principal razão porque a maioria das mulheres acaba por escolher fazer o parto em casa. Não é porque são malucas, hippies ou irresponsáveis. É porque sabem que tudo o que precisam para além de estarem devidamente acompanhadas por um enfermeiro especialista em saúde materna e obstetrícia, é de um espaço e tempo de tranquilidade, conforto e liberdade para agirem de acordo com a sua intuição. São mulheres que não estão disponíveis para serem desrespeitadas num momento tão importante para elas porque sabem que esse desrespeito é desencadeador de stress e sabem bem que o stress é o principal factor a eliminar num trabalho de parto.

É verdade que se tiveres conhecimento e consciência das consequências da maioria dos actos praticados nos hospitais, sabes que provavelmente vais entrar num ambiente que não condiz de todo com a tranquilidade que necessitas pois vais ter que reivindicar os teus direitos.
Então acabaste por ter o teu 2º filho em casa. E correu bem? Como foi?

Foi na água. Aliás, foi uma promessa que fiz a mim própria após o trabalho de parto do Luca que foi tão longo, porque fui várias vezes ao chuveiro e adorava essa sensação da água. E lembro-me de na altura pensar que seria óptimo ter uma banheira.
A primeira vez que ouvi falar sobre o parto na água ainda estava muito longe de alguma vez pensar em ter filhos, mas fez-me todo o sentido e só não o fiz na Clínica da Reboleira com o primeiro filho, o Luca porque o Paco, o meu marido, ficou preocupado porque não tinha neonatologia.
É difícil explicar o quão facilitador é o processo de trabalho de parto com a água. Só mesmo quem passa por um parto na água percebe o grau de conforto físico e psíquico que se pode encontrar na água.

Sim é comum ouvir essa associação entre o contacto com a água, porque se está imerso ou simplesmente debaixo de um chuveiro com a água a cair nas costas, e o conforto e relaxamento que trás.

Voltando ao Michel Odent e porque sei que fizeste formação de doula com o Michel Odent o grande defensor do parto humanizado. Fala-nos dessa formação e o efeito que teve em ti.

Sim fiz a formação não porque quisesse fazer o trabalho de doula e sempre soube que ser chamada a meio da noite para acompanhar um parto não é o estilo de vida que quero – talvez quando for mais velha, já não tiver filhos pequenos e já me tiver fartado de dormir 8 horas por noite! (risos). Mas o que queria era entender melhor este processo de gravidez, parto e pós parto.
Fiz também um curso de educadora Peri Natal e de Aleitamento Materno para acompanhar essa parte de saúde materna e poder fazer a ponte com as medicinas naturais, o que também não é muito comum em Portugal.

Os naturopatas não sabem muito de parto, pós-parto e alimentação, e as enfermeiras não sabem muito de naturopatia portanto achei mesmo importante fazer esta ligação.

Partindo do principio de que existe de facto este desconhecimento e desresponsabilização do ser humano em relação a si próprio e esta desconexão com o próprio corpo, o que sugerias às mulheres que gostassem de aprofundar estas questões?

Bom é difícil resumir isso. Estou a dar um Curso no Instituto Macrobiótico que se chama Saúde Integral da Mulher e como esgotou tão depressa resolvemos agendar já outro para iniciar em Janeiro. É 1 sábado por mês durante 7 meses. A intenção é criar um grupo que segue do inicio ao fim estas temáticas porque elas estão interligadas, em vez de fazer workshops isolados. Fala-se de saúde menstrual, contracepção natural, fertilidade natural, gravidez e parto, puberdade, menopausa e até os anos de transição que acontece por volta dos 40 e que por vezes são tão turbulentos…
A ideia é de facto dar as ferramentas para que as mulheres possam entender melhor o que se passa consigo e possam fazer escolhas conscientes. Vamos obviamente trabalhar também a parte emocional através de arquétipos femininos e vamos usar como referência a psicologia junguiana e os arquétipos da mitologia grega que ainda estão muito presentes no inconsciente colectivo ocidental. A Bibi Fernandes está a desenvolver a parte pratica do curso e descobrir a Bibi foi uma surpresa deliciosa porque ela é única a fazer esta conexão mente-corpo que é essencial.
A mensagem é esta mesmo de que é preciso conhecer o nosso corpo, mas depois é preciso empoderarmo-nos e tomar decisões conscientes.As decisões devem ser nossas e temos que correr riscos e assumir a responsabilidade na nossa saúde.

Sim a mim parece-me que é uma pescadinha de rabo na boca ou que uma coisa acaba por implicar a outra porque sem essa informação sobre a fisiologia do corpo e o que está implicado nas diferentes fases da vida nem se consegue tomar decisões mas como elas têm que ser tomadas, entregamo-las a quem consideramos que pode estar na posse do conhecimento.
Às vezes começa por ouvir! Estar apenas atenta aos sinais que o corpo vai dando e que são alertas.

Se tivesses que destacar os 2 ou 3 momentos mais marcantes da tua vida, quais seriam eles?

O primeiro foi quando decidi ir embora de casa. (Risos)

Estava no duche e tomei a decisão de ir estudar fora e de me afastar de uma relação que tinha que era altamente tóxica. E foi óptimo porque a partir daí recebi um feedback super positivo e percebi que por vezes temos que correr riscos e avançar em vez de ficarmos presos ao que não nos satisfaz !
Depois o segundo grande momento foi a morte da minha mãe que foi dos períodos mais negros, mas o que deixou a germinar foi exactamente o que temos estado a falar em relação à necessidade de fazer uma mudança profunda na minha vida porque não estava de facto feliz.
E o terceiro teve a ver com a maternidade e algumas experiências vividas na condição de mãe como ter estado à beira da morte.

O que aconteceu para estares à beira da morte?

Estava grávida de cerca de 10 semanas e foi uma gravidez que não foi viável.Foi há cerca de 7 anos. Tive uma hemorragia enorme durante a noite e desmaiei exactamente quando o Paco me estava a tentar levantar do chão. Fui de gatas da casa de banho em direcção ao Paco para lhe pedir ajuda. E foi aqui que começou esta “trip”… entrei numa área de luz e senti um profundo bem estar, mas de repente ouvi o grito do Luca a chamar “Mamma!” e foi como se estivesse a ser sugada novamente para o corpo e abri os olhos e sei que passaram apenas alguns segundos, mas a mim pareceu-me imenso tempo! Foi uma sensação ambígua porque estava tão bem lá, mas percebi que não podia seguir ou ficar quando ouvi o grito do Luca. E tudo isto ainda não é muito claro para mim, mas na altura foi mais uma mensagem forte de “vive a tua vida” porque o que há de paz está para vir e está garantido (risos).

Quantos anos tinha o Luca?

2 anos e ele dormia connosco no quarto e penso que acordou com o barulho e com o Paco a gritar e foi então que se pôs em pé na cama e gritou “Mamma!”

Ah! Ouviste mesmo! Ele estava mesmo a chamar por ti!

Sim, sim! Ouvi e senti mesmo “não posso partir”!
Para mim isto tudo está ligado. É como se o nascimento e a morte estivessem de mãos dadas e todas esta experiências de parir, de gerar, de perder outro bebé que aconteceu a seguir… posso dizer que a partir do momento que o meu útero começou a servir o efeito de acolher vida… trouxe muita coisa!

Antonella, vamos ficar por aqui, por agora! Obrigada! Por te partilhares connosco!
Se calhar vemo-nos no teu curso de Saúde Integral da Mulher 😉

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