A Antonella e a Saúde Integral da Mulher – 1/2

Quem conhece a Antonella Vignati, ainda que apenas circunstancialmente, reconhece-lhe a predominância duma postura simultaneamente afirmativa e maternal, ativa e participativa no seu próprio processo, mas também ela observadora atenta do fluxo e sabedoria da natureza, veículo de inspiração e pilar do seu saber.

Naturopata no Centro do Bebé, com uma especialização de acupuntura em ginecologia, moxibustão japonesa e acupuntura pediátrica japonesa não invasiva, também é educadora perinatal e fez formação de doula com o grande mestre Michel Odent. E a lista não fica por aqui – Conselheira de Aleitamento Materno, Macrobiotic Health Coach a terminar a licenciatura em Nutrição, é assumidamente uma mulher apaixonada pela saúde da mulher e do bebé.
Apaixonante!

Antonella, a tua formação em naturopatia é feita com a naturalidade de quem cresce num contexto familiar e cultural que dá valor à sabedoria intrínseca da natureza mas que tu reconheces como uma via profissionalizante, mais à frente, depois dos 30 anos. Até essa data seguias na vida como tradutora e professora de italiano. O que é que aconteceu? Como se dá essa constatação de que a Naturopatia seria um caminho para ti?

Na verdade foi uma confluência de factores. Já estava num processo de transformação e a fazer psicoterapia, e nessa altura a minha mãe adoeceu e de seguida morreu com cancro da mama e foi muito claro para mim que a vida é curta para nos estarmos a dedicar a algo que não gostamos ! Tudo isto funcionou como a alavanca de um processo que já estava a iniciar. Era o que queria fazer e era um passo que já estava a querer dar, mas estava naquele medo da mudança porque afinal tinha um ordenado bom como professora universitária o que também me dava algum prestigio social…

Que idade tinhas, exactamente?

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Por um lado havia esta questão da vida ser curta e ter de fazer o que eu gosto realmente mas por outro lado eu também já seguia uma via mais natural na vida, já era vegetariana desde criança. Aliás tornei-me vegetariana por instinto e foi mesmo uma decisão visceral

Em tua casa já eram vegetarianos?

Não. Mas onde eu vivia em Itália, nessa altura, a carne já só se comia 1 vez por semana e nesse dia eu simplesmente não comia a carne. Em relação ao peixe nunca foi grande questão porque como vivíamos em Roma e a minha mãe era duma cidade da costa, ela achava que estávamos muito longe da costa, portanto o peixe não era fresco. Mas também ela não gostava do cheiro do peixe, e eu, simplesmente, detesto, então felizmente, não se cozinhava peixe em casa.

Entretanto na minha primeira consulta de ginecologia após a morte da minha mãe, a médica sugeriu que fizesse uma mamografia e foi uma sugestão que me pareceu totalmente despropositada e também desalinhada com o que considero ser medicina preventiva – ía começar a procurar um problema até o encontrar!? (risos).

Nessa altura comecei realmente a questionar o que queria afinal para mim e acabou por se tornar mesmo uma necessidade enveredar por este caminho. Primeiro aprender para mim e depois então iniciar o caminho de ser terapeuta para outros.
Foi necessária uma certa dose de coragem para deixar para trás o que na altura considerava que eram privilégios, mas nunca me arrependi.

 

E toda a formação que fazes e que complementa e amplia o teu conhecimento do ser feminino é realizada com o intuito de apoiar essa via da saúde da mulher? Porquê esta vertente da saúde tão direccionada para a mulher? Como é feito este percurso?

Isso acontece apenas depois do 1º filho porque tive a oportunidade de sentir na própria pele o difícil que pode ser ser-se mãe e mulher também, nos dias de hoje.
É um confronto constante entre as dificuldades do que são as exigências externas do mundo e as exigências de estar noutra dimensão, porque quando se está num estado de fusão física e emocional com o bebé, estamos noutro planeta e sentimos constantemente que não há forma alguma de estar à altura das expectativas seja do que for . Por vezes ás 19H ainda estava em pijama!

Se tivesse que descrever com uma imagem o que me aconteceu diria que tinha rebentado uma bomba à porta de uma arrecadação cheia de tralha e que a tralha se espalhou pela casa toda!
Do ponto de vista emocional é tão forte que só temos 2 alternativas: negamos – e acho que a maioria das mulheres o faz porque não consegue de facto lidar com essa carga emocional e então tenta racionalizar ao máximo, e isso traduz-se em voltar ao trabalho o mais breve possível e encaixar o bebé nas suas rotinas (ter que dormir tantas horas e em horas especificas) ; ou então dá-se um grande processo de transformação e crescimento – dolorosíssimo, mas muito importante!

Percebi o dilema em que estamos metidas, nós as mulheres, porque não é só as mães. Há, de facto, um afastamento corporal tão grande, o que acontece também com os homens, mas nós mulheres temos uma fisiologia mais complexa o que naturalmente nos torna mais complexas e que dificilmente encaixa naquilo que é considerado um sistema produtivo. Por isso vivemos vários dilemas de coisas muito básicas como o facto de ciclicamente precisarmos de momentos de silêncio e introspecção ou de ciclicamente estarmos mais predispostas para outras actividades mas socialmente esse tempo não nos é concedido. A sociedade não se baseia muito no respeito desse ritmo e depois se olharmos para a maternidade… há uma enorme relativização de tudo. É terrível.

Diria que nas mulheres há uma maior conexão entre a mente e o corpo e a quebra dessa relação nota-se imenso e partir do momento em que entramos no caminho de uma ruptura com o que é natural. Cria-se a desconexão !

Exacto ! Eu acredito na educação como um dos grandes pilares de qualquer sociedade e parece-me que a nossa, para além de outras lacunas, não favorece o contacto com o elemento “sine qua non” a qualquer existência, que é termos um corpo. Não fomos educados para assumirmos a responsabilidade pelo nosso bem estar que passa pelo conhecimento de como o corpo funciona e de que forma o nosso estilo de vida influencia o nosso bem ou mal estar.
Tendo como base esta desconexão e consequente desresponsabilização, o que consideras que pode ser feito em prol de uma sociedade mais participativa no seu próprio crescimento e auto-conhecimento?

A nível da educação infantil existe tanto para alterar mas pegando nesta ausência de ligação pergunto de que forma se põe em pratica que existe esta ligação mente corpo se na faculdade de medicina se estuda de uma certa forma e na de psicologia outra e ninguém faz a ponte!? Os médicos não tomam em consideração o papel do emocional no corpo e os psicólogos não tomam em consideração o papel do corpo no emocional e trabalham de forma totalmente alienada. Então, é como se existisse um corte ao nível do pescoço e então temos o departamento do corpo e o departamento da cabeça .E esta ligação óbvia é feita nas medicinas não convencionais.

O trabalho que sinto que tenho de fazer é sentar-me com as mulheres e falar com as mulheres sobre certos temas para que elas se possam simplesmente reconectar a esse feminino a que abdicaram .

Tendencialmente a mulher tem uma relação muito fluída com o seu corpo mas a sociedade acaba por as impelir a cortar essa relação intrínseca. Há que analisar a nossa fisiologia. Se pensarmos o pouco que as mulheres sabem sobre o seu ciclo menstrual e o pouco que elas sabem sobre contracepção hormonal e os efeitos práticos dessa decisão… e os sangramentos que elas pensam que são ciclos e que não são ciclos, não são menstruações.Tudo isto é tão básico, no sentido de que é um conhecimento primordial, mas não é!

Que questões trazem as mulheres que te procuram, quais são as suas principais queixas.

O mais normal é estarem a tomar a pílula há dezenas de anos e depois não conseguem engravidar, ou não menstruam e se menstruam têm ciclos muito irregulares ou com sintomas que dantes não tinham. O mais comum é que essa pílula tenha sido prescrita quando tinham 12, 13 ou 14 anos porque tinham acne ou porque tinham ciclos irregulares.

Ou seja, mal o ciclo começa a funcionar, já se está de alguma forma a interromper o seu processo normal?

O problema é que nesta idade ainda não se estabeleceu o padrão. Ainda não se pode dizer que é ou não é normal ou que temos ou não temos um padrão. Se calhar ainda nem ovulou e está-se a interromper esse processo de maturação, é como estar a colocar em pausa por 10 ou 20 anos uma engrenagem que está a arrancar. Tem, obviamente, consequências.

Quais são os teus grandes pilares enquanto terapeuta? Ou seja, podemos dizer que tens uma base de trabalho apesar de te movimentares em tantas áreas de saber diferentes?

Bom a base principal para mim é o estilo de vida e a alimentação considero importantíssima desde que sou vegan. Entretanto fiz o curso de macrobiótica no Instituto Macrobiótico e estou a terminar Nutrição na Faculdade, mas claro que a minha prática enquanto terapeuta nunca se pode esgotar na alimentação pois somos muito mais do que o que comemos. As pessoas parecem esquecer-se que os hábitos de vida também incluem a exposição ao ar livre e ao sol. As pessoas estão muito fechadas e têm pouco contacto com a natureza; o sono também é fundamental. Parece que é necessário reaprender a dormir e perceber que adormecer em frente à TV ou depois de estar horas ao telemóvel afecta a qualidade do sono.

Depois há o lado emocional que geralmente surge quando já estou a trabalhar com a pessoa há algum tempo, mas depende porque na verdade tem a ver com a disponibilidade da pessoa para abrir essa porta.

Mas, sim, esta é uma área que é igualmente determinante. A pessoa pode ter uma dieta impecável mas se calhar é super infeliz no casamento ou no trabalho ou em ambos. E lá está, então temos uma infelicidade profunda que influência obviamente a nossa condição. Não há já dúvidas que existe uma ligação entre a mente e o corpo! Mas também tem que haver uma responsabilização por parte da pessoa que tem que estar disposta a trabalhar esses aspectos e isso inclui estar disponível para fazer uma viagem interior.

Mas essa não é tanto a tua área certo?

Não. De facto eu procuro acompanhar mais o lado físico mas posso ajudar a despistar e encaminhar.

Sei que dás formação e consultas direccionadas para o Método de Fertilidade Consciente. De que se trata exatamente?

É uma coisa relativamente simples (risos).

Eu digo relativamente porque na nossa cultura parece complicado, mas na verdade trata-se apenas de aprender os sinais do ciclo menstrual e fazer um mapa desse ciclo para sabermos quando somos e quando não somos férteis ao longo do ciclo. Essa é a informação que usamos em prol da fertilização ou contracepção, dependendo do nosso objectivo.

Existem 3 indicadores de fertilidade que são as temperaturas basais, a posição e textura do colo do útero e as secreções, ou seja, o muco cervical. Tudo o que é necessário é fazer um mapa com estes indicadores e facilmente se percebe que há X dias em que se está fértil e se se quer engravidar tenta-se e se não se quer evita-se a exposição ao risco e o resto do ciclo é tranquilo.

E é possível utilizar este método mesmo em mulheres que têm ciclos menstruais irregulares?

Sim porque não se baseia numa previsão. Não é um calculo de probabilidades.
E hoje em dia existem imensas aplicações que se pode baixar no telemóvel para fazer este mapeamento do ciclo. Antes era necessário apontar tudo, mas agora é muito mais fácil e inclusivamente, há um tempo, li uma noticia que referia que no Canadá a taxa de utilizadoras de contracepção hormonal desceu imenso, ao mesmo tempo que as taxas de gravidez indesejada não subiu. As mulheres não engravidam se não querem! Mas em Portugal ainda é um método relativamente desconhecido e uma rapariga nova, por definição, toma a pílula.

Pois, lá está, como existe esta desconexão com o corpo e prevalece a inconsciência de que podemos usar o conhecimento de determinados sinais a nosso favor, transferimos a responsabilidade por quase tudo o que nos diz respeito para os médicos.

Mas os médicos não recebem formação nessa área e por isso desconfiam imenso desses métodos porque consideram que se baseiam em cálculos probabilísticos. Mas na verdade até é um método bastante cientifico. É só analisar os sinais do próprio corpo. Mas claro que usar correctamente este método não é tão fácil como tomar uma pílula porque exige um pouco mais de observação e cuidado nos dias potencialmente férteis se não se pretende engravidar, e a maioria ainda prefere o facilitismo.

Podemos dizer que o estilo de vida pode determinar a fertilidade ou infertilidade, ou seja, que existem factores a que todos nós temos acesso e que podem influenciar a fertilidade?

(Não perca a 2ª parte desta entrevista onde serão abordados alguns Factores que podem influenciar a Fertilidade e as Histórias de Parto da Antonella)

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Até breve!

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