Keit Karemäe: Um Parto Vaginal Após Cesariana!

29/11/2017

A Keit Karemäe é da Estónia e é daquelas mulheres a quem não se fica indiferente ainda que apenas nos cruzemos com ela na rua! E não falo apenas da sua impressionante estatura, dos olhos de um azul doce e profundo, do impacto que uma pele fina, lisa e branca reflete no todo, ou até de como um sorriso aberto deixa qualquer um sem trunfos na manga! Está hoje connosco para nos contar as suas duas experiências de partos: uma cesariana e um parto vaginal.

Keit conta-nos como foi esta tua segunda gravidez e as diferenças em relação à primeira?

Na primeira gravidez comecei logo a ler imenso sobre o desenvolvimento do bebé, sobre a gravidez, quais eram as mudanças que estavam a ocorrer comigo e com o meu bebé, descansava sempre que podia e tinha atenção ao que comia. Sempre a pensar e agir em benefício do bebé.

A fazer tudo como mandava o figurino

Sim e sabia exatamente em que altura estava também porque tinha muito tempo, pois era o meu primeiro filho.Lembro-me que saía do trabalho e podia ir às compras ou ir passear tranquilamente

Quando engravidei do meu segundo filho, o Enzo, estava muito focada no Isaac e o tempo livre que tinha era para ele, então acabei por não ter tanto tempo para me dedicar a esta gravidez

Mas na verdade já sabias! Porque essa pesquisa já estava feita e já estavas naturalmente a aplicar o que tinhas aprendido da primeira gravidez.

Sim e na gravidez do Enzo a minha maior preocupação era criar ligação entre o Isaac e o bebé que estava para chegar.

Como foi a primeira vez que o Isaac viu o Enzo

Foi incrível! Entrou na sala e nem olhou para mim, foi directo ao bebé e ficou fixo nele e a querer tocar,…e contou os dedos e reparou que as unhas eram muito pequeninas!

Fala-nos sobre os teus partos? Como foi a primeira experiência?

Foram dois partos totalmente diferentes embora as expectativas que tinha para um e outro fossem as mesmas. Eu quis sempre um parto o mais natural possível, gostava que fosse na água, mas o mais importante que respeitasse o tempo que o bebé necessita para nascer e também poder ter o meu companheiro presente porque ele queria muito.
Nada disto foi possível no primeiro parto, embora tenha sido falado no Hospital e nos tenham dito que sim ainda que fosse cesariana…

Soubemos que provavelmente teria uma cesariana pois o bebé estava pélvico. Tentámos aceitar apesar de termos utilizado várias técnicas para ver se ele mudava de posição. O que ficou combinado com a equipa foi que na altura que desse entrada no Hospital se avaliava e decidia o que fazer mediante a ecografia, pois apesar de pélvico há posições que permitem fazer o parto vaginal.

Em que Hospital foi?
Em Setúbal. Entrei em trabalho de parto e decidiram fazer cesariana de imediato, mas não me disseram mais nada a não ser “ está pélvico, vamos para cesariana”. Na verdade, nós também não questionámos pois só queríamos que ele ficasse bem.

E não deixaram entrar o Rodrigo.

E tu tinhas um plano de parto?
Sim tinha e isso estava contemplado.

Em que altura é que deixaram entrar o Rodrigo?

Nunca o deixaram entrar na sala onde foi feita a cesariana.
Quando o Isaac nasceu, só o vi por cima da cortina e levaram-no para dentro e depois trouxeram de volta e chegaram-no a mim para lhe dar um beijo (eu tinha as mãos presas) e levaram-no para estar com o Rodrigo.

Quando fui para o recobro é que me trouxeram o Isaac e deixaram-no comigo para ele mamar

E como foi?

Bom, eu não percebia o que devia fazer e de repente vi-me com a responsabilidade nova e estava mesmo a sentir-me incapaz. Ainda que se fale sobre isso nos cursos de preparação para o parto, pensei que era uma coisa natural e que o bebé saberia o que fazer…mas depois as enfermeiras ajudaram.

Então e passados quase três anos da primeira gravidez, quando engravidaste novamente quais foram as tuas preocupações? O que é que tinhas na cabeça?

Estava completamente paranóica em relação à posição do bebé e ele esteve quase sempre de cabeça para baixo, mas na verdade em qualquer altura eles podem virar então tentava não fazer nada que achasse que ele pudesse não gostar – por exemplo, dormia sempre na mesma posição.

E como foi o processo de trabalho de parto do teu segundo, o Enzo? 

Foi exatamente como eu queria desta vez! Mas a coisa mais difícil para mim foi perceber quando estava de facto em trabalho de parto. As contracções iniciaram durante o dia e eu foi ás compras, fui ao parque com o Rodrigo e o Isaac e muitas vezes tive que parar para deixar passar a contracção mas não dei importância, achei que era normal. Só duas ou três horas depois quando cheguei a casa é que comecei a apontar as contracções e percebi que já estavam de 5 em 5 minutos…foi quando te liguei! Lembrei-me que tínhamos combinado que quando eu achasse que podia estar em trabalho de parto te ligava e juntas percebíamos em que fase estaria.

Pois e já tinhas que parar de falar quando a contracção vinha

Sim, mas eram toleráveis, não era nada de insuportável

Sim porque o processo quando não é acelerado e é natural, as dores são mais softs, aumentam gradualmente e as hormonas trabalham a nosso favor…por outro lado como tu andaste sempre a fazer outras coisas acabaste por estar mais distraída. Não estavas em stress e o stress influencia a forma como vivemos a dor .

Há uma frase tua que não esqueço que foi logo depois do Enzo nascer, dizeres-me “Foi exactamente como eu queria”. E estavas muito bonita!

Sim! Antes de entrar em trabalho de parto o meu único receio eram as possíveis intervenções que algum enfermeiro ou médico quisesse aplicar, e correu lindamente porque não houve nada disso. Por outro lado o Rodrigo esteve presente e o ambiente era muito intimista, porque não houve gente a entrar e a sair. Esteve presente apenas o enfermeiro que me assistiu e o Rodrigo e depois chegaste tu, mas não havia mais ninguém. Eu estava com pessoas em quem confiava 100% e então senti-me muito à vontade e muito confortável. Depois o enfermeiro Bruno Rito deu-me muita confiança e acalmou-me imenso porque ia explicando o que estava a acontecer e o que eu ía sentir e falava comigo. Fui percebendo o que estava a acontecer com o meu corpo e percebi que estava tudo a correr bem e que estava bem entregue.

No inicio houve uma enfermeira que me perguntou se eu queria epidural. Eu perguntei ao Bruno se ia ficar muito pior e como ele respondeu que em principio a dor não aumentaria, só ía aumentar a frequência com que as contracções iriam ocorrer, então não me fez sentido nenhum e nunca mais me perguntaram nada.

Parece-me que foi a tranquilidade com que recebeste as primeiras contracções que permitiu que tudo se desenrolasse tão bem. Não criaste resistência nenhuma então corpo e mente trabalharam de facto em conjunto. Estás mesmo de Parabéns!

Sim! Fiquei com pena que tivesse sido tão rápido

Ainda bem que fotografaste porque foi tudo muito rápido para mim!

Quer dizer que tu gostaste mesmo da experiência do trabalho de parto! E até querias que fosse mais longo ?

Sim ! Há momentos que tenho muito presentes como quando estava sentada no banco de parto e o Bruno me perguntou se queria sentir a cabeça do bebé. Essa sensação é inesquecível e ainda hoje uma forma de reviver esse momento é fazer-lhe festas na cabeça. Entre sentir a cabeça dele e ele estar cá fora foram mais umas 4 contracções.
Na ultima contracção fechei os olhos porque fiquei com medo de não gostar do que ia ver e hoje penso “porque é que fechei os olhos!?”

Tiveste a percepção de que essa contracção era uma contracção de expulsão do bebé, é isso? 
Sim!

Então dá-nos o desenrolar desde que entraste no Hospital

Depois da triagem, entrei para um quarto e o Bruno observou-me com muito cuidado e disse-me que já estava bastante avançado, já tinha uns 5 dedos e perguntou-me se eu queria ir para o duche. No duche fiquei de cócoras que era a posição mais confortável para mim, e o Bruno foi falando comigo, mas em muito pouco tempo como não dava para estar apoiada em lado nenhum comecei a ficar com pouca força nas pernas e saí para fora do duche e escolhi então ficar sentada no banco de parto.

Já tinhas experimentado o banco ou foi a primeira vez?

Experimentei na visita guiada e quando entramos no quarto o Bruno perguntou-me como eu queria ficar. Sugeriu algumas alternativas mas eu escolhi logo o banco porque ficamos apoiadas, não fazemos força com as pernas e depois percebi nitidamente que a posição vertical favorecia a descida do bebé. Lembro-me de ficar com muito sono e de só querer dormir e perguntar-lhe se não podia só dormir um bocadinho (risos).
Ele explicou-me que esse estado em que estava era uma consequência da minha oxitocina e que isso permitia que eu desligasse algumas partes do cérebro e também que perdesse a noção do tempo. Fiquei fascinada com a inteligência do meu corpo.

E quando o bebé nasceu, como foi?

Felizmente o Bruno estava lá e agarrou-o porque eu não consegui mas passou logo para mim e ficou logo junto a mim. Primeiro na zona da barriga mas logo o Bruno puxou um pouco o cordão para ele vir mais para cima e como já estava muito cansada, fui para a cama.

E o que fizeram ao Enzo quando ele nasceu?

Nada! Administraram a vitamina K mas com ele junto a mim. Só o retiraram para o pesar e até fomos nós que o vestimos bem mais tarde, porque ele ficou a mamar durante horas.

Queria falar mais sobre as dores – Lembro-me de me dizeres que as dores que tiveste em casa foram diferentes das dores quando estavas já a fazer força no Hospital. Consegues explicar melhor?

Estas dores são diferentes das dores que eu conhecia porque são no corpo todo, não é uma dor localizada e não havia grande coisa que eu pudesse fazer para aliviar a dor. O que me ajudou foi contar os segundos, porque eu já sabia que duravam cerca de 30 segundos, e depois também percebi que se levantasse 1 perna de cada vez tinha um alivio. O banho também ajudou.
Mais tarde fiquei com vontade de fazer força e essa força fez com que a dor desaparecesse. Nesta altura as contracções eram muito mais frequentes e em pouco tempo o Enzo estava comigo!

Houve alguma coisa que tiveste neste parto e que consideras que foi determinante para o sucesso do trabalho de parto e que caso venhas a ter outro, não queiras prescindir?

Estive muito bem acompanhada e se vier a ter outro bebé, volto ao Garcia da Horta e quero que seja o Bruno Rito a acompanhar-me. Ter- te como doula e poder falar sobre tudo o que quis, esclarecer as minhas dúvidas, juntamente com os encontros do Positive Birth Movement foi mesmo importante porque me trouxe imensa confiança.

E continuas com o desejo do parto na água?

Gostava de experimentar mas sinto que já não estou tão presa a essa ideia porque tudo correu muito bem.

Como te sentes em relação a este parto e ao primeiro? Sentes que fizeste as pazes com a cesariana do Isaac?

Ainda estou muito zangada não tanto com a cesariana em si, mas com o desrespeito em relação ao meu plano de parto que contemplava a cesariana. E depois há a minha experiência e a do bebé e é com essa parte das implicações que tem até na saúde do bebé que me incomodo mais. Sinto-me ainda responsável por não poder ter oferecido ao Isaac um parto mais natural.

Tens vontade de deixar alguma mensagem ou conselho a outras mulheres grávidas? Imagina que estavas numa reunião do Positive Birth Movement e como já tiveste dois bebés, te pedem conselhos

É relaxar! Não pensar! Temos 9 meses para procurar a informação, refletir e tomar decisões
Quando se entra em trabalho de parto não é altura para estar a racionalizar.
Just go with the Flow!
Confiem no corpo porque ele sabe o que está a fazer. O corpo é inteligente.
E estejam rodeadas de pessoas da vossa confiança!

E se tivesses outro parto irias querer novamente 1 fotografo de parto?

Sim! Sem dúvida porque é uma experiência para toda a família e que acontece uma vez na vida! Tem um valor inestimável

E alguma vez te sentiste invadida ou sentiste que esse registo estava a interferir ?

Não! Porque também confiava em ti! Por outro lado estava tão envolvida no processo que nunca mais pensei em mais nada! E depois é uma decisão tomada também a pensar no futuro.

Obrigada minha querida! Foi um prazer fazer esta viagem convosco

Entrevista efectuada por : Susana Pereira

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Até Breve!

SOBRE A ASSISTÊNCIA AO PARTO
Neste misto entre o potencial e a fragilidade a que todo o ser humano está votado, persiste a tendência para considerar e adjectivar a mulher e o bebé maioritariamente como frágeis e ignorar o potencial que a vida em si encerra.
Ciência e Intuição 1/2
Será que podemos considerar que uma gravidez desde que seja seguida e estando a decorrer dentro da normalidade e dado o conhecimento que actualmente já detemos do desenvolvimento de um trabalho de parto, é possível prever o que pode ocorrer?
O QUE É QUE ESTÁ Á ESPERA? PERMITA-SE!
Acostumámo-nos a viver numa alucinação e é difícil conseguir sair da roda viva. Estamos de tal forma habituados á turbulência que, parar, parece coisa de gente sem nada para fazer da vida.
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