Keit Karemäe: Um Parto Vaginal Após Cesariana!

 

Parece-me que já ouvi dizer que as mulheres mais bonitas são de um qualquer país da Europa de Leste…

A Keit Karemäe é da Estónia e é daquelas mulheres a quem não se fica indiferente ainda que apenas nos cruzemos com ela na rua! E não falo apenas da sua impressionante estatura, dos olhos de um azul doce e profundo, do impacto que uma pele fina, lisa e branca reflete no todo, ou até de como um sorriso aberto deixa qualquer um sem trunfos na manga! Se tiverem a sorte de se cruzarem com ela na rua vão reconhecer uma certeza  subtil mas presente no seu caminhar enquanto mulher e mãe de dois rapazes simplesmente encantadores!Está hoje connosco para nos contar as suas duas experiências de partos: uma cesariana e um parto vaginal.

Keit conta-nos como foi esta tua segunda gravidez e se houve diferenças em relação à primeira?

Na primeira gravidez comecei logo a ler imenso sobre o desenvolvimento do bebé, sobre a gravidez, quais eram as mudanças que estavam a ocorrer comigo e com o meu bebé, descansava sempre que podia e tinha atenção ao que comia. Sempre a pensar e agir em benefício do bebé.

A fazer tudo como mandava o figurino

Sim e sabia exatamente em que altura estava também porque tinha muito tempo, pois era o meu primeiro filho.Lembro-me que saía do trabalho e podia ir às compras ou ir passear tranquilamente

Quando engravidei do meu segundo filho, o Enzo, estava muito focada no Isaac e o tempo livre que tinha era para ele, então acabei por não ter tanto tempo para me dedicar a esta gravidez

Mas na verdade já sabias! Porque essa pesquisa já estava feita e já estavas naturalmente a aplicar o que tinhas aprendido da primeira gravidez.

Sim e na gravidez do Enzo a minha maior preocupação era criar ligação entre o Isaac e o bebé que estava para chegar.

 

Como foi a primeira vez que o Isaac viu o Enzo

Foi incrível! Entrou na sala e nem olhou para mim, foi directo ao bebé e ficou fixo nele e a querer tocar,…e contou os dedos e reparou que as unhas eram muito pequeninas!

Que lindo! Até ali o bebé pertencia apenas ao imaginário dele

Gostava de saber mais sobre os teus partos? Como foi a primeira experiência?

Bom foram dois partos totalmente diferentes embora as expectativas que tinha para um e outro fossem as mesmas. Eu quis sempre um parto o mais natural possível, gostava que fosse na água, mas o mais importante que respeitasse o tempo que o bebé necessita para nascer e também poder ter o meu companheiro, o Rodrigo, presente porque ele queria muito.
Nada disto foi possível no primeiro parto, embora tenhamos falado no Hospital sobre a presença do Rodrigo e nos tenham dito que sim ainda que fosse cesariana…

Soubemos que provavelmente teria uma cesariana pois o bebé estava pélvico. Tentámos aceitar apesar de termos utilizado várias técnicas para ver se ele mudava de posição. O que ficou combinado com a equipa foi que na altura que desse entrada no Hospital se avaliava e decidia o que fazer mediante a ecografia, pois apesar de pélvico há posições que permitem fazer o parto vaginal.

Em que Hospital foi?
Em Setúbal

Entrei em trabalho de parto dois dias antes das 41 semanas (tinha cesariana marcada para as 41 semanas) e decidiram fazer cesariana de imediato, mas não me disseram mais nada a não ser “ está pélvico, vamos para cesariana”. Na verdade, nós também não questionámos pois só queríamos que ele ficasse bem.

E não deixaram entrar o Rodrigo.

E tu tinhas um plano de parto?
Sim tinha e isso estava contemplado.

Em que altura é que deixaram entrar o Rodrigo?

Eles nunca o deixaram entrar na sala onde foi feita a cesariana.
Quando o Isaac nasceu, só o vi por cima da cortina e levaram-no para dentro e depois trouxeram de volta e chegaram-no a mim para lhe dar um beijo (eu tinha as mãos presas e levaram-no para estar com o Rodrigo)

Quando fui para o recobro é que me trouxeram o Isaac e deixaram-no comigo para ele mamar

E como foi?

Bom eu não percebia o que devia fazer e de repente vi-me com a responsabilidade nova e estava mesmo a sentir-me incapaz. Ainda que se fale sobre isso nos cursos de preparação para o parto, pensei que era uma coisa natural e que o bebé saberia o que fazer…mas depois as enfermeiras ajudaram.

Então e passados quase três anos da primeira gravidez, quando engravidaste novamente quais foram as tuas preocupações? O que é que tinhas na cabeça?

Estava completamente paranóica em relação à posição do bebé e ele esteve quase sempre de cabeça para baixo, mas na verdade em qualquer altura eles podem virar então tentava não fazer nada que achasse que ele pudesse não gostar – por exemplo, dormia sempre na mesma posição.

E como foi o processo de trabalho de parto do teu segundo, o Enzo? Foi o que esperavas?

 

Foi exatamente como eu queria desta vez! Mas a coisa mais difícil para mim foi perceber quando estava de facto em trabalho de parto. As contracções iniciaram durante o dia e eu foi ás compras, fui ao parque com o Rodrigo e o Isaac e muitas vezes tive que parar para deixar passar a contracção mas não dei importância, achei que era normal. Só duas ou três horas depois quando cheguei a casa é que comecei a apontar as contracções e percebi que já estavam de 5 em 5 minutos…foi quando te liguei! Lembrei-me que tínhamos combinado que quando eu achasse que podia estar em trabalho de parto te ligava e juntas percebíamos em que fase estaria.

Pois e já tinhas que parar de falar quando a contracção vinha

Sim, mas eram toleráveis, não era nada de insuportável

Sim porque o processo quando não é acelerado e é natural, as dores são mais softs, aumentam gradualmente e as hormonas trabalham a nosso favor…por outro lado como tu andaste sempre a fazer outras coisas porque estavas nas compras e no parque, acabaste por estares mais distraída, portanto não estavas ansiosa sem saber quando viria outra contracção e se era ou não era. Não estavas em stress e o stress influencia a forma como vivemos a dor e até a potência.

Há uma frase tua que não esqueço que foi logo depois do Enzo nascer, dizeres-me “foi exactamente como eu queria”.

E estavas linda de morrer! E sempre com um sorriso incrível!

Sim! Antes de entrar em trabalho de parto o meu único receio eram as possíveis intervenções que algum enfermeiro ou médico quisesse aplicar, e correu lindamente porque não houve nada disso. Por outro lado o Rodrigo esteve presente e o ambiente era muito intimista, porque não houve gente a entrar e a sair. Esteve presente apenas o enfermeiro que me assistiu e o Rodrigo e depois chegaste tu, mas não havia mais ninguém. Eu estava com pessoas em quem confiava 100% e então senti-me muito à vontade e muito confortável. Depois o enfermeiro Bruno Rito deu-me muita confiança e acalmou-me imenso porque ia explicando o que estava a acontecer e o que eu ía sentir e falava comigo. Fui percebendo o que estava a acontecer com o meu corpo e percebi que estava tudo a correr bem e que estava bem entregue.

No inicio houve uma enfermeira que me perguntou se eu queria epidural. Eu perguntei ao Bruno se ia ficar muito pior e como ele respondeu que em principio a dor não aumentaria, só ía aumentar a frequência com que as contracções iriam ocorrer, então não me fez sentido nenhum e nunca mais me perguntaram nada.

Sei que não recebeste epidural, mas quando o processo avançou houve alguma altura em que pensaste “agora sabia bem uma epidural!”?
Não. tenho até pena que o parto tenha sido tão rápido porque eu estava tão preparada para estar ali até um dia inteiro e queria colocar em prática tudo o que aprendi.

Pareceu-me que foi a tranquilidade com que recebeste as primeiras contracções que permitiu que tudo se desenrolasse tão bem. Não criaste resistência nenhuma então corpo e mente trabalharam de facto em conjunto. Estás mesmo de Parabéns!

Ainda bem que o Rodrigo filmou e tu tiraste fotografias porque foi tudo muito rápido para mim!

Quer dizer que tu gostaste mesmo da experiência do trabalho de parto! E até querias que fosse mais longo para puderes aproveitar melhor cada momento?

Sim ! Há momentos que tenho muito presentes como quando estava sentada no banco de parto e o Bruno me perguntou se queria sentir a cabeça do bebé. Essa sensação é inesquecível e ainda hoje uma forma de reviver esse momento é fazer-lhe festas na cabeça. Entre sentir a cabeça dele e ele estar cá fora foram mais umas 4 contracções.
Na ultima contracção fechei os olhos porque fiquei com medo de não gostar do que ia ver e hoje penso “porque é que fechei os olhos!?”

Tiveste a percepção de que essa contracção era uma contracção de expulsão do bebé, é isso? Percebeste que ele ia sair?
Sim!

Então dá-nos o desenrolar desde que entraste no Hospital

Depois da triagem, entrei para um quarto e o Bruno observou-me com muito cuidado e disse-me que já estava bastante avançado, já tinha uns 5 dedos e perguntou-me se eu queria ir para o duche. No duche fiquei de cócoras que era a posição mais confortável para mim, e o Bruno foi falando comigo, mas em muito pouco tempo como não dava para estar apoiada em lado nenhum comecei a ficar com pouca força nas pernas e saí para fora do duche e escolhi então ficar sentada no banco de parto.

Já tinhas experimentado o banco ou foi a primeira vez?

Experimentei na visita guiada e quando entramos no quarto o Bruno perguntou-me como eu queria ficar. Sugeriu algumas alternativas mas eu escolhi logo o banco porque ficamos apoiadas, não fazemos força com as pernas e depois percebi nitidamente que a posição vertical favorecia a descida do bebé. Lembro-me de ficar com muito sono e de só querer dormir e perguntar-lhe se não podia só dormir um bocadinho (risos).
Ele explicou-me que esse estado em que estava era uma consequência da minha oxitocina e que isso permitia que eu desligasse algumas partes do cérebro e também que perdesse a noção do tempo. Fiquei fascinada com a inteligência do meu corpo.

E quando o bebé nasceu, como foi?

Felizmente o Bruno estava lá e agarrou-o porque eu não consegui mas passou logo para mim e ficou logo junto a mim. Primeiro na zona da barriga mas logo o Bruno puxou um pouco o cordão para ele vir mais para cima e como já estava muito cansada, fui para a cama.

E o que fizeram ao Enzo quando ele nasceu?

Nada! Administraram a vitamina K mas com ele junto a mim. Só o retiraram para o pesar e até fomos nós que o vestimos bem mais tarde, porque ele ficou a mamar durante horas.

Queria falar mais sobre as dores – Lembro-me de me dizeres que as dores que tiveste em casa foram diferentes das dores quando estavas já a fazer força no Hospital. Consegues explicar melhor?

Estas dores são diferentes das dores que eu conhecia porque são no corpo todo, não é uma dor localizada e não havia grande coisa que eu pudesse fazer para aliviar a dor. O que me ajudou foi contar os segundos, porque eu já sabia que duravam cerca de 30 segundos, e depois também percebi que se levantasse 1 perna de cada vez tinha um alivio. O banho também ajudou.
Depois há uma altura em que começas a ficar com vontade de fazer força e fazer força faz com que a dor desapareça. Nesta altura as contracções eram muito mais frequentes e em pouco tempo o Enzo estava comigo!

Houve alguma coisa que tiveste neste parto e que consideras que foi determinante para o sucesso do trabalho de parto e que caso venhas a ter outro, não queiras prescindir?

Estive muito bem acompanhada e se vier a ter outro bebé, quero que seja o Bruno Rito novamente. Ter uma doula ou alguém que me acompanhe, ajude a esclarecer, a procurar informação e a falar sobre tudo o que quiser também é muito importante. Os encontros do Positive Birth Movement também me deram sempre imensa confiança.

E continuas com o desejo do parto na água?

Gostava de experimentar mas sinto que já não estou tão presa a essa ideia porque tudo correu muito bem.

Como te sentes em relação a este parto e ao primeiro? Sentes que fizeste as pazes com a cesariana do Isaac?

Ainda estou muito zangada não tanto com a cesariana em si, mas com o desrespeito em relação ao meu plano de parto que contemplava a cesariana. E depois há a minha experiência e a do bebé e é com essa parte das implicações que tem até na saúde do bebé que me incomodo mais. Sinto-me ainda responsável por não poder ter oferecido ao Isaac um parto mais natural.

Mas sabes que não estava na tua mão e depois nem sempre é fácil encontrar um sentido mas quem sabe mais à frente tudo fica mais claro.

Tens vontade de deixar alguma mensagem ou conselho a outras mulheres grávidas? Imagina que estavas numa reunião do Positive Birth Movement e como já tiveste dois bebés, te pedem conselhos

É relaxar! Não pensar! Temos 9 meses para procurar a informação, refletir e tomar decisões
Quando se entra em trabalho de parto não é altura para estar a racionalizar.
Just go with the Flow!
Confiem no corpo porque ele sabe o que está a fazer. O corpo é inteligente.
E estejam rodeadas de pessoas da vossa confiança!

E se tivesses outro parto irias querer novamente 1 fotografo de parto?

Sim! Sem dúvida porque é uma experiência para toda a família e que acontece uma vez na vida! Tem um valor inestimável

E alguma vez te sentiste invadida ou sentiste que esse registo estava a interferir ?

Não! Porque também confiava em ti! Por outro lado estava tão envolvida no processo que nunca mais pensei em mais nada! E depois é uma decisão tomada também a pensar no futuro.

Thanks, Sweetie!

What a wonderful journey we had together!

Entrevista efectuada por : Susana Pereira

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