Enfermeiro Bruno Rito – Quando saber esperar é uma arte -2/2

2ª PARTE ENTREVISTA

(o acesso à primeira parte desta entrevista encontra-se  AQUI )

Bruno, queres explicar quais são os sinais ou sintomas que uma mulher pode reconhecer e que a ajudam a decidir se é altura ou não de ir para o Hospital?

As minhas indicações são para ficar em casa e aplicar as medidas de alívio de dor não farmacológicas que eu ensino, até as contracções ficarem de três em três minutos- isto quando se trata de um primeiro filho – e que cada uma tenha uma duração perceptível de cerca de um minuto. Ao fim de uma hora de estar assim em casa, então pode-se dirigir para o Hospital desde que este fique nas redondezas. Assim, a mulher já chega com uma boa dilatação e ainda que a mulher solicite medidas farmacológicas, estas já não interferem tanto no trabalho de parto.

Podemos dizer que o Hospital Garcia da Orta já tem uma filosofia de respeito pelo parto natural? Quais são os vossos procedimentos?

A mulher quando chega faz a inscrição. Se não tem indicação para internamento, porque pode estar ainda numa fase muito precoce de trabalho de parto, é sugerido que vá deambular e pode fazê-lo no Hospital e nas imediações. Às vezes faz duche na nossa urgência. Nalguns casos poderá ser recomendado mesmo voltar para casa com indicação de regressar mais tarde. Apesar de esta atitude não ser transversal a todos os profissionais, os enfermeiros já têm uma linha de actuação muito homogénea e de excelência que tem vindo a melhorar ao longo do tempo.

Com os médicos ainda estamos nos primeiros passos pois ainda se encontram muito ligados apenas à técnica e ao tratamento da doença.
Quando temos médicos de outros hospitais que são contratados e vêm fazer banco ao nosso, pode ser ainda mais complicado porque a filosofia de trabalho pode não ser a mesma. Mas as mudanças fazem-se gradualmente e na verdade, o trabalho de parto é acompanhado por nós, enfermeiros-parteiros, e os médicos intervêm numa fase posterior, quando as nossas competências terminam.

Também tens um centro onde dás as tuas aulas de pré-parto e também acompanhas o pós-parto, correcto?

Sim, a preparação para o parto deve ser feito por profissionais que tenham sensibilidade para ajudar os casais e que não despejem simplesmente os conteúdos. E também deve haver disponibilidade por parte de quem dá as aulas para o caso de o casal necessitar de ligar quando iniciar o trabalho de parto. Isso faz toda a diferença! Mas, mais uma vez, é preciso saber escolher quem nos acompanha.

O que é abordado nesses cursos de preparação para o parto?

Na gíria dizemos que são aulas de preparação para o parto mas na verdade é uma preparação para a parentalidade. No fundo é preparar os pais para uma fase nova da vida deles que é serem pais e que decorre durante cerca de 12 semanas, o que permite desenvolver com os mesmos uma relação fantástica que se vai prolongar muitas vezes no trabalho de parto, parto e puerpério.

Significa que depois do nascimento continuas a acompanhar o casal?

Sim, porque também temos aulas de recuperação pós-parto, numa perspectiva da recuperação física mas também de acompanhamento psicológico pois é uma altura de grande instabilidade emocional.

Da tua experiência de acompanhar partos o que é que prevalece como preocupação para as mulheres em relação ao parto e o que é que as mulheres precisam durante o trabalho de parto?

Não noto que elas tenham receio do parto, mas sim que aconteça algo ao bebé. E precisam ter alguém de confiança e que esteja disponível para as acompanhar. Alguém que tenha conhecimento do processo que estão a passar, e que esse profissional lhes vá dando feedback de como está a decorrer o trabalho de parto.

A presença do companheiro é, na tua opinião, vantajosa para a mulher e para a equipa que apoia o parto?

Sempre! Muito importante! Mas desde que esteja preparado e trabalhado nesse sentido. Há pais que vêm com a ideia de que vão para um filme de terror, mas vão na mesma. A sociedade que há 25 anos atrás preconizava que os partos eram exclusivamente assunto de mulheres e portanto homem que se envolvesse era rotulado, hoje, considera que “é menos homem” quem não quer estar presente.

Atualmente existe pressão por parte da sociedade para que o parto seja um momento do casal.E muitas vezes eles estão mais ansiosos que as mulheres, porque não estando preparados não entendem o que se está a passar e querem ajudar e não sabem como.

Sim, e partindo do pressuposto que houve um trabalho antes, na altura do parto temos que nos lembrar que aquele também é um momento extremamente importante e emocional para o pai e tem que se dar atenção e envolvê-lo no processo ou pode-se tornar angustiante e isso influenciar a parturiente.

Até a forma como nos referimos à situação quando perguntamos “quem é que vai estar a assistir ao parto? As pessoas que estão dentro da sala de parto não são meros assistentes, são acompanhantes, portanto se vão estar presentes, devem ser envolvidos.

E a doula? Qual é a tua opinião sobre a presença da doula e em simultâneo com o companheiro?

Ainda se estão a dar os primeiros passos com a presença da doula no parto isto porque talvez seja algo que ainda é visto como uma invasão ao espaço do profissional.
Só o facto de uma mulher chegar com um plano de parto já cria um sistema de defesa nos profissionais…o que não faz qualquer sentido. Se o profissional de saúde tem confiança no que faz deve integrar que a presença da doula é para apoiar a mulher, logo uma mais-valia para si enquanto profissional. Apesar de terem competências diferentes, o intuito é o mesmo – o de ajudar a parturiente.

Mas a minha questão é se para ti enquanto profissional consideras ser viável, quando estás a acompanhar um trabalho de parto, teres mais dois elementos na sala?

Sim, é perfeitamente possível sermos 3 ou 4 pessoas numa sala de parto desde que seja essa a vontade da utente/casal e os papéis de cada um estejam bem definidos. Não vejo qualquer problema em que sejam dois acompanhantes. O importante é que a mulher se sinta confortável com a presença dessas pessoas, que sejam pessoas da sua inteira confiança e que ela saiba que estão lá para a apoiar e totalmente disponíveis para viver com ela essas horas.

Imagina então que essa mulher para além do companheiro e da doula, quer ficar com um registo fotográfico profissional do parto que é de facto um evento único e memorável, e pede autorização para ter um fotografo?

Sim, também há essa situação e compreendo essa opção! Sinceramente na minha opinião não me parece haver qualquer problema em realizar-se esse registo fotográfico até porque se esse for um desejo do casal o facto de permitir poderá também ter influência positiva no decorrer do trabalho de parto e parto. Mas é sempre necessário avaliar as coisas no momento. Se há condições no serviço para o fazer e se é um desejo do casal, porque não?

Portanto, tudo isto deve ser falado com a devida antecedência até para que as pessoas todas se conheçam e o profissional possa avaliar cada situação?

Exatamente!Acima de tudo é muito importante que todos estejam no mesmo registo e que se cumpram algumas regras para que todo o processo se desenrole com tranquilidade.
É do conhecimento de todos que quando há um profissional do serviço ou mesmo do hospital a ter bebé, é permitida a presença de mais de uma pessoa e também o registo fotográfico. Sou a favor e costumo dizer que somos da casa e temos de olhar uns pelos outros, mas também podemos alargar esta oportunidade para outros, pois não vejo que estes pequenos gestos possam ter alguma implicação negativa no correto funcionamento de um serviço de obstetricia. Antes pelo contrário, até fomenta bom ambiente, motivação e apreciação positiva por parte dos utentes do trabalho ali desenvolvido.

Ter um filho é um momento único na vida de uma mulher e de um homem, porque não colaborar da melhor maneira na manutenção desta felicidade?

Quero falar sobre o banco de parto, porque sei que criaste este instrumento de trabalho que permite à mulher ter um parto vertical suportado, certo? Como é que surgiu este banco?

Há registos de utilização de cadeiras e bancos desde há muito anos, tanto noutros países como no nosso. No nosso hospital, e este especialmente que desenhei, surgiu na altura do desenvolvimento do tal projecto de que falei anteriormente. Comecei por fazer os partos de cócoras, e porque também estou ligado à emergência médica, pude constatar que em situações de partos domiciliares nenhuma mulher tinha tido o bebé deitada.

Fisiologicamente, a posição deitada não beneficia o trabalho de parto e por outro lado, percebi que tínhamos toda a tecnologia que permitia acompanhar e monitorizar o trabalho de parto mesmo de cócoras. Deitada é a posição mais difícil porque os diâmetros da bacia ficam mais fechados, então porque não facilitar a vida à mulher e ao bebé? É claro que isto dá mais trabalho ao profissional e este também perde o protagonismo.

O percurso foi o de implementar o parto de cócoras. Inicialmente era apenas eu e mais uma colega, mas gradualmente foram-se juntando mais colegas. Entretanto comecei a perceber que havia senhoras que não toleravam estar de cócoras muito tempo e tínhamos que ir intercalando com períodos de descanso, ficar de pé, andar, voltar à posição… Isto porque, ou tinham mais peso, ou estavam mais inchadas, e foi nessa altura que me surgiu a ideia de criar o banco.
O banco permite que os diâmetros da bacia fiquem alterados, permite uma postura vertical e portanto facilitadora e a mulher não tem o peso sobre as pernas! E pode ter o companheiro ou a doula a suportar-lhe as costas ou até apoiar-se na maca.

Imaginando que se está a desenhar o projeto para uma nova maternidade ou casa de partos e que te pediam a opinião sobre o que lá deve existir. O que considerarias, ou qual seria a tua listagem de material, equipamentos e instalações que recomendarias?

Esse é um dos meus sonhos.
Uma casa de parto deve ser um espaço físico onde o casal se sinta confortável e quando digo confortável não me refiro apenas a aspectos físicos, mas que todo o ambiente não seja intimidatório; que disponha de equipamento adequado e que possa dar resposta a situações que possam correr menos bem e em que seja necessária uma intervenção imediata. Na minha opinião o equipamento deve estar mais resguardado para não desencadear stress. Deve ter a possibilidade de ter música, uma piscina, duche e cores agradáveis. A ideia é que seja um ambiente mais “familiar” do que “hospitalar”.

O que é que na tua opinião é necessário fazer para que se comece a abrir mão dos moldes que desenham o nosso modelo de assistência ao parto?

O que me parece que está a prejudicar a forma como se vive o parto em Portugal são os hospitais privados porque gerem o hospital na perspectiva do lucro e por isso se fazem tantas cesarianas. E é preciso haver um maior controlo sobre estas cesarianas. Como acompanho senhoras nas três fases – pré, parto e pós-parto – tenho conhecimento da argumentação completamente injustificável, utilizada para indicação de cesarianas.
Mas também temos as cesarianas eletivas..

Essa é uma questão muito pertinente nos dias de hoje. Antes de mais porque é que algumas mulheres preferem ir diretas para a cesariana?

Parece-me que possa estar associado à própria personalidade e cultura dessas mulheres. Talvez porque ser mãe não é de facto o seu projecto ou não estão preparadas para o processo… a idade, a família e a falta de tempo também são factores que penso que influenciam essa decisão. Actualmente parece não haver tempo para nada. Nem para ter bebé!

E achas que não pode, também estar relacionado com o medo do parto e das dores do parto?

Sim, também, mas é uma questão de falta de informação e de terem referências familiares ou do círculo de amigas que passaram por partos menos fáceis e essencialmente por não haver divulgação dos riscos e consequências da cesariana, tanto para a mulher como para o bebé.
Depois também existe uma filosofia hospitalar que é favorável a essa prática! Há uma grande responsabilidade por parte da classe médica para o elevado número de cesarianas. Para algumas mulheres, uma cesariana não é mais que abrir um fecho que se volta a fechar depois de se tirar o bebé. Não conhecem as implicações. Algumas conhecem os riscos na altura da cirurgia mas não conhecem os riscos, as implicações e as desvantagens pós-cesariana. Se fossem devidamente informadas, talvez reflectissem mais e talvez pedissem mais explicações ao profissionais e não se entregassem à decisão do médico.
Cada mulher é uma mulher, mas há um denominador comum entre as mulheres: todas elas querem o melhor para o seu bebé!

Então, fazendo apenas um ponto de situação, consideras que uma campanha de informação sobre as consequências das cesarianas poderia ajudar a diminuir a taxa de cesarianas eletivas?

E não só! Neste momento temos 49% de Hospitais privados e nenhum deles deixa os enfermeiros fazerem partos, porque segundo o que consta os seguros não pagam partos feitos por enfermeiros! Portanto, a probabilidade de termos partos realizados por enfermeiros nos hospitais privados é baixa pois o valor pago por um parto vaginal é muito diferente do que é pago por cesariana. E a gestão é feita mediante a disponibilidade do médico que tem um determinado número de mulheres e alinha a marcação do parto mediante a sua agenda. Portanto, é frequente não se dar oportunidade á mulher de entrar em trabalho de parto.

Então é preciso chegar à classe médica?

Não me parece, pois a maioria não está interessada em mudar seja o que for.
É preciso chegar às mulheres e aos casais para que estes deixem de ser espectadores de um processo onde, na realidade, o que eles são é os principais protagonistas e passem a fazer parte integrante das decisões que lhes dizem diretamente respeito.
Também seria uma mais valia se nos hospitais privados, os partos também fossem acompanhados pelos enfermeiros obstetras.

Costumo pedir um conselho ou uma referência para os pais que estão interessados em saber mais sobre o nascimento e a importância deste evento único na vida de todos nós e tu tens muitas vezes grupos de mulheres grávidas e acompanhantes á tua frente. O que aconselharias se pudesses dar apenas um conselho?

Não ir demasiado cedo para o Hospital, mas sabendo porque pode ficar em casa e saber o que fazer!
Ir para o hospital na altura certa é o segredo disto tudo porque define a forma como se desenvolve o trabalho de parto.
Já que não há uma filosofia generalizada de humanização do parto, então terão de ser as mulheres a erguer a sua bandeira.
A maioria vai demasiado cedo porque fica ansioso e tem receio que o bebé possa nascer em casa, mas há mais de 10 anos que acompanho casais e uma larga maioria seguiu as minhas indicações. Muitos ligam-me nessas horas mas nenhuma destas mulheres teve o bebé em casa.

A quantidade de mulheres que vão para a nossa urgência às 37, 38, 39 semanas porque perdeu o rolhão mucoso!? Isto não é um sinal de entrada em trabalho de parto! O bebé vai nascer sim, mas pode ser daí a 15 dias! Isto revela que há gravidezes que são muito mal acompanhadas.
Um obstetra faz 10 consultas e se perguntarmos a uma grávida o que é que eles falaram sobre esta questão de ser pai e ser mãe, as respostas são quase sempre as mesmas – zero! E depois essas mulheres não sabem quais são os sinais de entrada efectiva em trabalho de parto, não sabem o que fazer perante a ruptura da bolsa de águas e muitas vão imediatamente para o hospital e de ambulância! E fizeram 10 consultas!
Penso que os cuidados de saúde que acompanham a gravidez precisam mudar porque estas mulheres vão para os hospitais cedo demais e sempre que o fazem estão a abrir a porta ao início das situações invasivas!

Bruno, vou dar a nossa entrevista, que já vai bem longa, por terminada e agradecer a tua frontalidade e disponibilidade para me receberes e falarmos abertamente sobre estas questões tão pertinentes!
Até breve!

Nota: a 1ª parte desta entrevista encontra-se  AQUI

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