ENFERMEIRO BRUNO RITO – Quando Saber Esperar é uma Arte – 1/2

 

O trabalho de parto é um evento que está naturalmente sujeito a alguma imprevisibilidade e talvez seja esta uma das razões que dispõe a maioria dos profissionais a querer controlar o maior número possível de variáveis de forma a poderem ter o processo o mais “fechado” possível. Outras, poderão ser a  dificuldade de questionar o que foi aprendido, de manter o conhecimento actualizado, de colocar a prática em causa e adaptar procedimentos que a realidade exige e que a evidência científica demonstra…e claro, um bocadinho de puro exercício de poder.

Existe, segundo a Organização Mundial de Saúde, uma lista de recomendações para o parto normal saudável, lista esta que é baseada em evidência científica e que se foca na ideia global de respeito à dignidade feminina e ao suporte social, espiritual e psicológico ao parto.

A evidência científica demonstra que vários procedimentos hospitalares ligados ao nascimento como o enema, a tricotomia, o afastamento da família, a episiotomia, a indução, entre ouros, não têm fundamentação para a sua realização e não passam de práticas ritualistas que não oferecem benefícios à díade mãe-recém-nascido e que inclusivamente os mantém atrelados a um sistema de poder que não considera a habilidade da mulher para dar à luz.

Acredito que, apesar de todo o desenvolvimento da medicina e da tecnologia, de uma maneira geral, a melhor forma de acompanhar um ritual de passagem tão marcante e poderoso como é o nascimento, passa por uma atitude de respeito pela dignidade humana e o saber colocar-se na posição de se ser guardião de dois seres que embora se encontrem numa situação de fragilidade, têm um potencial incrível – o de dar à luz e (re)nascer!
O enfermeiro Bruno Rito é um profissional destes que já conta com mais de dez anos de experiência como enfermeiro especialista em saúde materna e obstetrícia.

Olá Bruno! Porquê esta vontade de trabalhar com as mulheres e o que consideras que ditou a forma digna e respeitosa com que recebes e acompanhas cada mulher na hora do parto?

Desde que fiz a minha formação inicial que a área que queria desenvolver na minha carreira era a obstetrícia, mas durante muito tempo as especialidades estiveram encerradas. Comecei por trabalhar num serviço de medicina e depois passei para o bloco operatório, mas sempre com este objectivo muito claro de fazer a especialidade em obstetrícia logo que houvesse essa possibilidade.
Desde muito cedo que sou fascinado por essa capacidade que a mulher tem de gerar um ser e depois conseguir colocá-lo nos seus braços. Ainda que estejamos num ambiente hospitalar, considero mesmo imprescindível, que o profissional que atende o casal, entenda que existe para apoiar e proporcionar a cada casal, a vivência desse momento único da melhor forma para poder ser sempre recordado com muita felicidade.

Ambos sabemos que essa postura não é muito comum e portanto surpreende-me…tu acreditas que a mulher, de uma forma geral, está apta a dar à luz e que o processo é dela e do bebé e que tu és um elemento fundamental, essencialmente porque conheces o processo tecnicamente.
Apoias e estás apto a intervir, se necessário, mas a tua postura é a de quem acompanha e confirma e/ou orienta no sentido de facilitar o processo.

Exatamente! Diria mesmo que é simplesmente isso! Muito fácil!

E esta postura do que conheço não vem da vossa formação base...

Não. A nossa formação base não trabalha muito esta parte e especialmente quando eu fiz a especialidade. Continua a haver um desequilíbrio muito grande entre a prática e a teoria. É notório que alunos e escolas se focam essencialmente em trabalhos escritos em lugar de desenvolverem competências na prática, junto dos casais. Mesmo a informatização dos processos clínicos, em minha opinião, está demasiado complexa e isso naturalmente afasta o profissional do contacto com os casais – é importante a presença do enfermeiro durante o trabalho de parto, promovendo um ambiente calmo e seguro pois é um dos factores que favorece toda a fisiologia do parto.

E como surge na tua prática, o parto vertical?

Houve uma altura em que a nossa chefe de enfermagem nos lançou o desafio de implementarmos algo inovador e aproveitei então para implementar o que já tinha vontade – o parto de cócoras, que é uma das posições facilitadoras do processo de trabalho de parto… que é da mulher…porque a mulher está habilitada para dar à luz.

Portanto já vem de trás, acreditares no potencial da mulher?

Sim, sim! A natureza tem isto muito bem delineado. Os profissionais por vezes é que complicam o processo quando o pretendem controlar.
Apesar de tudo sou a favor do desenvolvimento das tecnologias e da sua aplicação na obstetrícia, mas como em tudo, sem fundamentalismos. É preciso bom senso e responsabilidade.

A cesariana é uma técnica muito válida mas à qual se deve recorrer apenas se necessário e não como ainda se pratica neste momento em alguns hospitais privados do nosso país. Na maioria das vezes é uma técnica utilizada sem respeito pelo critério para o qual foi desenvolvida, ou pior ainda, usando as suas indicações de forma menos adequada, como seja o casal ser informado que tem de se efetuar uma cesariana porque a grávida tem streptococcus B positivo em culturas de exsudado vaginal e rectal, ou ainda porque o bebé tem o cordão à volta do pescoço… porque se induziu o parto às 38 semanas para o bebé não crescer muito.. ou até porque se induziu o parto às 38 semanas porque o profissional de saúde estava de serviço naquele determinado dia.

São variadíssimas as justificações para se praticarem estas barbaridades e infelizmente por profissionais especialistas em obstetrícia.
Todas as indicações para cesariana e indução do parto estão muito bem definidas em normas na Direcção Geral de Saúde. Porque não se cumpre?
É importante dar oportunidade ao potencial da mulher para ter o seu bebé e, se for necessário, aí sim, activar o potencial do profissional para ajudar a mãe e o bebé. Mas nunca ao contrário!

Há quanto tempo estás em Obstetrícia?


Iniciei em 2008. Comecei antes como enfermeiro, mas sem a especialidade e terminei a especialidade nesse ano.

Parece-me pertinente e delicada esta questão de perceber até onde deve ir a liberdade de escolha da mulher, exactamente pela questão da segurança.
Podemos considerar que no limite pode haver um exercício deste direito de escolha da mulher que coloque em risco, não só a sua saúde e do bebé, mas também a vossa prática enquanto técnicos responsáveis pelo bem-estar do utente?
E por outro lado, como é que a mulher distingue se o profissional está a sugerir uma intervenção mais invasiva porque de facto é absolutamente necessária ou se essa medida está a ser sugerida apenas em prol de uma prática “mais segura/rotineira” para o profissional?

Às vezes essas situações podem colidir, mas antes de mais é necessário que os profissionais se consciencializem que dar à luz é um processo natural e que a mulher, em princípio, está preparada para esse evento.
Também é verdade que algumas mulheres não conseguem, por haver alguma incompatibilidade ou por não estarem de facto psicologicamente preparadas, e aí sim, os profissionais devem accionar as medidas que conhecem e que podem ser mais invasivas para ajudarem a mãe e o bebé a terem um parto em segurança.
Se essa não for a situação, defendo que o parto deve ser o mais natural possível.

Não há necessidade de activar medidas medicalizadas quando o processo está a decorrer dentro da normalidade. Antes pelo contrário. Accionar essas medidas desnecessariamente só nos vai trazer problemas no imediato ou a longo prazo.
Se a mulher chega ao Hospital com dores, mas são dores suportáveis e entende que essa dor faz parte do processo e aceita, podemos oferecer medidas de controlo da dor não farmacológicas e quando o justificar passar para as farmacológicas, mas informando sempre para que ela possa tomar as suas decisões.

É frequente os casais chegarem ao hospital desinformados e claro que ficam entregues às decisões dos profissionais. A responsabilidade é de ambos – casais e profissionais. A nossa função é informar o casal para que possa tomar decisões conscientes e o trabalho de parto se desenvolva em parceria connosco. A do casal será inteirar-se do que está a viver para saber fazer escolhas conscientes.
E é este o protocolo que defendo e que me parece que necessita ser desenvolvido em ambiente hospitalar: informar para responsabilizar e depois deixar que o parto se desenrole da forma mais natural possível e se necessário, então, aplicar medidas, mas sempre da menos invasiva e mais natural para a mais invasiva.

Agora fizeste-me lembrar uma dança a par. No tango é assim! O homem conduz e a mulher segue, mas é um diálogo constante e há liberdade para criar.
No parto, a mulher conduz e o profissional segue na medida em que acompanha e conhece o seu processo.E o diálogo é essencial para que o profissional possa adequar as técnicas que conhece à situação presente e mediante o consentimento informado da mulher.
Como referiste há pouco, não há nenhum parto que seja igual e essa disponibilidade de escuta activa é muito bonita!

Parece que é tudo uma questão de conceitos. Hospital é sinónimo de intervenção e de técnicas e a verdade é que quando a mulher chega numa fase mais avançada ao hospital, os partos correm bem! Então porque é que não conseguimos acompanhar as que chegam mais cedo com medidas que permitam que o processo também se desenrole de uma forma natural?

Concordas que a primeira fase do trabalho de parto pode ser mais difícil para a mulher porque passa do não ter dores para de repente ter dores e com a dor pode vir a ansiedade e/ou stress?

Sim, também porque na fase inicial a mulher ainda está muito alerta e é um mecanismo novo e desconhecido no que se refere ao “sentir”. Mais à frente, perto do período expulsivo, ela já está muito focada no processo e desligada do que a rodeia e as hormonas aí têm um papel preponderante porque ajudam no processo.
Mas as hormonas inerentes ao stress inibem o trabalho de parto! Por isso se deve estar num ambiente tranquilo e a maioria dos hospitais, infelizmente, ainda não oferecem essa tranquilidade, antes pelo contrário.
Falta o trabalho com a comunidade, no sentido de informar e dar espaço e autorização para o casal ficar em casa tranquilamente e em segurança a fazer uma parte do trabalho de parto e não irem precocemente para o Hospital.
Deveria existir uma linha telefónica no bloco de partos que permitisse apoiar e fazer uma avaliação conjuntamente com a grávida para se decidir a melhor altura para se dirigir à maternidade.

Essa linha seria útil a muita gente e especialmente aos casais que não têm doula porque a doula também ajuda a fazer essa avaliação.
Queres explicar quais são os sinais ou sintomas que uma mulher pode reconhecer e que a ajudam a decidir se é altura ou não de ir para o Hospital?

(Não perca a 2ª parte desta entrevista onde serão abordados temas como o papel do companheiro e da doula, modelos de assistência ao parto, e a tão polémica cesariana)
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