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Luísa Condeço – A doula que se apaixonou pela “Cientificação do Amor”

 

Chama-se Luísa Condeço esta mulher de bem com a vida, de olhar meigo e voz melodiosa, que se desloca no espaço com a certeza de quem sabe o caminho que ainda há a percorrer e a segurança de quem abraça essa missão de sorriso subtil, mas cheio por dentro! É mãe de 2 rapazes e decidiu ser doula quando percebeu que se sentia deprimida e insatisfeita, já tinham decorrido 6 meses do nascimento do primeiro – um parto de 12 horas induzido que deu origem a uma cesariana, com anestesia geral.

Uma história comum a tantas outras, mas a Luísa não é mulher de ficar de braços cruzados e quando começou a pesquisar, percebeu que cerca de 70% dos partos induzidos resultavam em cesariana ou em partos instrumentalizados (com forceps ou ventosas) e que estas induções se realizam não por necessidade médica mas sim por sua (deles) conveniência! Que estas induções são o início de uma grande bola de neve, ou seja, o despoletar de uma série de outros procedimentos que retiram a dignidade e o controlo do nascimento aos seus verdadeiros protagonistas – a mãe e o bebé (!) e que, naturalmente, têm consequências para ambos.

Desde esta tomada de consciência á sua viagem a Londres para fazer formação com o obstetra francês, percursor do parto humanizado, Michel Odent, abriu-se todo um novo mundo para a Luísa e, desde aí, também para todas as mulheres que têm tido a sorte de com ela se cruzar . A Luísa é doula há 16 anos e dá formação para doulas há cerca de 12 anos, fundou a Associação Doulas de Portugal, criou uma espaço de partilha no fb para doulas e gere a Rede Portuguesa de Doulas.

Luísa, tu que és doula desde 2001, tens alguma ideia do número de mulheres e casais que já acompanhaste como doula?

Não.Se me perguntares quantos partos já assisti… partos, posso-te dizer que já assisti cerca de uma centena. Acho que ainda não ultrapassei os 120. Agora, se me perguntares quantas mulheres já acompanhei, isso é diferente porque há mulheres que acompanhei por telefone e também por mail. E agora há mulheres que também acompanho pelo messenger… então diria talvez o dobro.

Mas porquê este acompanhamento sem estares depois presente no “grande evento”? Será porque o mais importante para algumas mulheres é estarem informadas?

Sim! E também porque algumas mulheres queriam de facto o meu acompanhamento mas eram de Lisboa e eu não conseguia estar presente – estando em Évora, a distancia torna as sessões mais dispendiosas. E acabávamos por estar em contacto da forma que era possível que era conversar ao telefone, muitas mensagens e e-mails e também no skype. Isto também acontecia muito numa fase em que eu acompanhava mais partos hospitalares e a presença da doula não era tão permitida, por isso acabava por ser mais eficiente eu orientar até ao trabalho de parto porque aí a mulher já está mais segura e o companheiro também já tem mais ferramentas para acompanhar a mulher.

E nesses casos recebias feedback de como tinha sido o trabalho de parto?

Sim, sim. Tive situações de já estar a família em casa e ligarem o skype para ver o bebé. Tive momentos muito bonitos.

Agora já não tenho tantos porque estou nas formações. Tenho uma, duas grávidas por ano

Porque tu agora estás a dar prioridade ás formações?

Sim, sim! E prefiro que sejam vocês a fazerem esse acompanhamento.

Achas que também já há uma exaustão depois de 16 anos de prática?

Sim, um bocadinho, não vou dizer que estou cansada dessa vertente porque é sempre uma maravilha esta oportunidade de ter um conhecimento mais profundo de outro ser humano. Mas é uma disponibilidade de 24 sobre 24 horas que eu já tenho convosco. Por exemplo para este parto eu tenho que estar pelo menos 4 semanas sem trabalho.. não compensa.. e aquela coisa de sair ás três ou quatro da manhã e sem hora de regresso…

E olhando para trás, para o período em que iniciaste este percurso de doula e para a atualidade, ao final destes 16 anos, o que se mantém igual e o que notas que mudou?

Consigo ver grandes diferenças na informação que as mulheres têm hoje em dia. Há 16 anos atrás não havia ninguém que eu conhecesse que soubesse o que era uma doula. Nem sequer o google sabia o que era uma doula!

Então como é que elas chegavam a ti?

Havia uma ou outra que era mais informada e então a informação começa a circular. Mas lembro-me de escrever a palavra doula no google e o google sugerir outra pesquisa tipo ” não quis dizer douglas?”. E no principio quando eu comecei a trabalhar eu tinha uma ou duas grávidas de seis em seis meses e para um parto em casa, eventualmente uma delas. Hoje em dia a maior parte das mulheres que chegam a mim são mulheres muito informadas, que sabem o que querem, quais os procedimentos que querem evitar, sabem o que é o plano de parto, sabem porque querem uma doula e que a doula não vai substituir o companheiro nem nenhum outro profissional de saúde, e também é muito mais raro encontrar uma mulher que considere que a doula pode “fazer” o parto.

Os papeis de cada um e inclusivamente da doula, estão mais claros. Uma outra diferença é a abertura dos profissionais de saúde e dos hospitais em relação á nossa presença e para receber um plano de parto. Quando eu comecei, ninguém falava de plano de parto (PP).Tínhamos os exemplos do Reino Unido e do Brasil e não havia mais nada. As reacções aos PPs eram reacções de indignação “mas o que é que a senhora quer dizer com isso!?”. Hoje há profissionais de saúde que recomendam que a mulher elabore o seu PP. Há instituições que já têm o seu plano de parto. Estas são para mim as grandes diferenças.

Então já temos profissionais mais informados e abertos a novas práticas baseadas em evidência científica e já temos hospitais (poucos) com uma filosofia de respeito pela livre escolha da mulher, que é a grande protagonista do parto; e isso é de facto um marco importante porque a mulher quando exerce o seu poder de escolha e opta por um hospital que se adequa ao que espera do seu parto, vai mais tranquila e segura que é quase a condição sine qua non para que o parto se desenrole de uma forma natural.

Mas a verdade é que temos ainda muitos relatos de mulheres com experiências de desrespeito pela livre escolha e a percentagem de mulheres informadas que segue para o seu hospital de eleição sabe que está ainda dependente de um golpe de sorte de lhe calhar uma equipa ou um profissional que a vai respeitar …ou não. O que consideras que pode ser o grande passo que ainda temos para dar?

O grande passo que ainda temos para dar, nós mulheres, é exercermos o pleno direito às opções e às escolhas. As mulheres continuam a achar que são obrigadas a ter o bebé em determinado local, porque não sabem que têm outras opções ou não sabem que têm pleno direito de uma outra opção tão ou mais saudável que aquela que lhe oferecem.

Porque é uma questão cultural, não é?

Sim , é uma questão profunda e cultural

Que é não estarmos habituados a tomar decisões?

E a sermos responsáveis! Eu ser responsável pela minha escolha! Eu ás vezes pergunto “mas quem é que escolheu o seu vestido de casamento…? Então porque é que vai deixar que outra pessoa que não conhece de lado algum, escolha a forma como vai nascer o seu bebé? O que é que é mais importante? O que é que é mais duradouro? O que é que é mais estruturante para vocês enquanto família e a nível emocional, psicológico e marcante na vida de uma mulher e de uma família, que o nascimento de uma criança?

Falta esse grande passo!

Sim! Porque o nascimento e o parto ainda estão ligados à área da saúde e não a um evento ou processo natural e para o qual a mulher está apta desde que seja uma gravidez sem complicações. E a área da saúde, na minha opinião, erradamente, ainda é interpretada como não sendo da nossa responsabilidade mas sim e exclusivamente dos médicos, que na verdade são mais peritos é na doença.

Sim! Eu sei escolher o meu vestido de noiva, mas eu não sei absolutamente nada sobre evidências científicas ou procedimentos hospitalares.

Mas eu até posso ter informação e posso saber que tenho direito a dizer que não a uma indução sem necessidade médica, mas se eu não tiver auto-estima suficiente, se eu não acreditar o suficiente em mim, eu não vou conseguir enfrentar aquela figura de autoridade que ainda é o médico que parece que sabe mais acerca do meu corpo que eu própria.

O Empoderamento é a palavra chave, não é? Informação e empoderamento

É!

A mim dá-me a sensação que rapidamente se vai dar esse passo porque hoje em dia o acesso á informação é muito fácil. Embora mudar mentalidades seja um dos processos mais morosos e seja também essencial que a mulher se conheça e aceite que é dona de um corpo apto e perfeito para dar á luz. Talvez não necessitemos de mais 16 anos para esta atitude ser generalizada.Que te parece?

Exactamente. Eu sinto que é cada vez mais rápida esta transformação e vejo isso especialmente nas mulheres que me chegam aos cursos que desde o primeiro dia já mudaram o vocabulário sobre elas próprias. Ao fim do primeiro módulo já têm uma consciência diferente de quem eram quando chegaram. Aquilo que eu sinto em relação ás mulheres – e falo de mulheres porque trabalho essencialmente com elas e são raros os homens que fazem formação comigo, mas se calhar também está a acontecer com os homens, mas não tenho essas evidências – é que elas estão sedentas de uma transformação interior, estão disponíveis e por isso faz-me tanto sentido fazer este trabalho de formação neste momento. Eu sozinha a trabalhar com uma grávida tem um valor. Eu a trabalhar com dez mulheres que depois vão trabalhar com outras 10, 20, 30, 50… é totamente diferente. Tem outra amplitude esta energia que se espalha..

Se pudesses dar apenas 3 conselhos a uma mulher que está grávida, ainda não tem doula nem sabe se quer ter, e independentemente do seu tempo de gestação e do seu contexto, o que lhe dirias?

(…)

Arranje uma doula?

(Gargalhadas) Absolutamente! Só estava a pensar se referia algo antes.

Sim, a primeira seria arranja uma doula! Uma doula que esteja disponível para te ouvir, que te compreenda e te devolva as palavras que tu dizes acerca de ti própria. Pergunta-te do que tens medo ou o que te impede de seres a mulher poderosa que podes ser mas que ainda não és. E por ultimo, escolhe alguém da tua inteira confiança e um local seguro para teres o teu bebé.

E eu dizia outra… sabes qual era o conselho seguinte que eu daria?

Qual?

Arranje um fotografo para registar o seu parto

(gargalhadas)

Já reparaste que só agora se começa a registar o nascimento e como se vive o parto? os bebés que estão a ser fotografados ainda não têm idade para apreciar esses registos, mas é um evento único e tão vibrante e poderoso que não sei como não se começou a fazer isto mais cedo. Tu não gostavas de ter um registo do teu nascimento? De como a tua mãe te deu á Luz?

Claro!Antigamente havia mais fotografias de funerais e do morto arranjadinho

O nascimento passou a ser um evento médico, patológico e também de cariz sexual e por isso não só profundamente intimo mas mesmo tabu e tudo isto junto transforma- o num evento com uma grande carga de secretismo. Mas também com uma carga pesada porque está ligado á dor, ao sangue, aos panos cirurgicos esterilizados, aos gritos que não embelezam a natureza intrinseca do nascimento… e o fotografo pode fazer isso! Pode resgatar essa beleza! Mas a maior parte das pessoas não quer um fotografo porque está preso ás histórias que tem na memória e ás ideias que interiorizou de um momento violento.

Pronto, essa mulher que arranje uma fotografa também, porque não faz ideia de quão bela vai estar!

Exacto! Sabes que quando fotografei o primeiro parto em casa, quando as fui editar, eu própria estava incrédula como aquela mãe estava mesmo líndissima e até penteada!Na altura até eu fui contagiada com o poder da oxitocina, mas depois em casa dei comigo a pensar que ninguém diria que aquela mulher tinha passado por um parto – lá está a minha conceptualização do parto em casa, na altura…a Oxitocina, para além de hormona do amor deveria passar a ser apelidada de “peeling hormone”.

(Risos)E tem de facto esse efeito. Ainda ninguém se lembrou foi de explorar esse lado

Então voltando a esta tua vontade de investir cada vez mais na formação, o que consideras essencial em termos de aprendizagem para essas mulheres? Quais são as caracteristicas que consideras que são mesmo essenciais para o arranque deste exercício de acompanhar mulheres no período de gestação, parto e pós-parto? O que é que te deixa descansada no final da formação e te diz que essas mulheres, apesar da formação ser continua, estão preparadas para iniciar esse caminho?

Aquilo que eu espero das minhas formandas, no final da formação, é que elas tenham descoberto nelas próprias uma profunda capacidade amorosa de se olharem, de se respeitarem e de se escutarem. Porque se a mulher conseguir fazer este exercício consigo, vai conseguir fazê-lo com a outra porque as evidências científicas encontram-se com um click, mas a disponibilidade para olhares para a outra de forma amorosa, sem a criticares e sem a julgares começa em ti.

A prática, as evidências científicas e até o exame final faz parte de um conjunto e de um processo que é necessário fazer-se e que tem aspectos emocionais e académicos, mas acima de tudo o que desejo para as minhas alunas é essa capacidade amorosa de se saber respeitar, amar e escutar.

Sim, aquilo que valorizas em ti, vais naturalmente evidenciar na tua prática

Sim e vais-lhe dar ferramentas para ela fazer isso com os seus filhos e com quem lhe estiver próximo e olhando assim para uma big picture tens um mundo mais saudável, mais pacificado.

Sim, mais feliz!

Esse se calhar é o meu grande objectivo! Pode ser numa escala pequenina mas é pelo “local” que se começa

Então e tu, Luísa, que és doula, se agora estivesses grávida, escolherias uma doula ou não? Sabemos que tiveste dois partos que não foram fáceis, já se passou tanto tempo e já tens uma consciência tão diferente da que tinhas há 16 anos atrás, mas ainda assim escolherias ter uma doula ?

Os meus partos foram de facto muito marcantes, mas como já disse várias vezes estou muito agradecida pelos meus partos especialmente pelo primeiro porque foi ele que me abriu o caminho para a vida que tenho hoje. Eu não estou grávida e eu tenho duas ou três doulas residentes. Por isso se engravidasse agora teria de facto

três ou quatro doulas diferentes. Este trabalho de me devolverem o que eu digo é essencial!

Independentemente da mulher estar informada e segura há uma parte de descoberta que deve ser contínua.

Sim. Porque não é só a evidência científica. Vais precisar sempre de um olhar amoroso sobre ti própria mas do outro lado e com outra perspectiva. Porque se tu olhares para baixo só consegues ver a ponta do teu nariz, mas se permmitires que eu olhe para ti, eu posso-te dizer como é a tua testa, as tuas sobrancelhas, como tu franziste o sobrolho mesmo agora… então vais ter outra perspectiva . E é esse o trabalho que a doula faz, quando a mulher permite, evidentemente.

Então é essa abertura, essa sinceridade e honestidade de devolver sem constrangimento?

Sim porque entre as doulas existem professoras, advogadas, 1 cantora lírica, cientistas, artistas plásticas, artistas de circo, cozinheiras… há toda uma miríade de profissões como há de carácteres e de personalidades. Há umas super divertidas, outras mais sérias, umas super calmas outras de voz doce, outras que chegam e fazem a festa… o que está na base deste trabalho que as une a todas é de facto essa vontade de olhar para si próprias de forma amorosa e de devolverem à outra de igual forma. Mesmo que eu não tivesse amigas assim, acabaria por ter amigas assim.

Queres deixar  alguma referência para as mulheres e casais que queiram saber mais sobre a importância da forma como se nasce ?

A primeira referência seria : procura uma doula que faça trabalho emocional

A segunda: se gostas de ler… lê Michel Odent .Foi o meu primeiro grande mestre e continua a ser um homem surpreendente e brilhante que nos faz questionar e que incentiva a mudança de perspectiva e de paradigma.

E já teria muito com que se entreter…

Sim, mas a sugerir um livro talvez sugerisse “A Cientificação do Amor” que foi um livro que mexeu comigo porque a ciência e o coração, são duas coisas que, aparentemente não se misturam, mas foi com ele que foi possível compreender a relação das hormonas e das reacções emotivas e de como as reacções emotivas influenciam maior produção de hormonas e de como tudo isto está interligado. Foi o momento em que me apaixonei e percebi que era mesmo isto que queria fazer.

Ainda não li mas acho que é isso que também origina a aceitação e a responsabilização. Quando conheces o processo em que estás, reconheces em ti e identificas, sentes-te mais apta a tomar conta de ti e ainda tem a grande vantagem de se ficar a saber como se pode usar a informação a nosso favor.

A Xuxuta costuma dizer qualquer coisa como ” aquilo a que tu resistes, persiste” e de facto é assim. Quando tu te rendes tens a paz da fluidez e já não há o cansaço do conflito e da luta que tira energia.

E por último não podia deixar de referir que visitem o site da Cochrane que é uma organização internacional constítuida por profissionais ligados à area da saúde e investigadores de todo o mundo e que disponibiliza os seus estudos que são baseados em evidência cientifica.

Obrigada minha querida!
Até breve!
Entrevista efectuada por: Susana Pereira

2 Responses to “Luísa Condeço – A doula que se apaixonou pela “Cientificação do Amor””

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